Chainsaw Man nasceu como mangá de Tatsuki Fujimoto, combinando horror sobrenatural, ação escancarada e uma dose aguda de crítica social. A obra explora demônios, humanidade e os sacrifícios que as pessoas fazem para sobreviver. Deste modo, a adaptação para anime já conquistou fãs por sua estética violenta, mas também por sua profundidade emocional e crítica social.
O filme Chainsaw Man: Arco da Reze (2025) é dirigido por Tatsuya Yoshihara e produzido pelo estúdio MAPPA. O longa segue a proposta central da obra: combinar horror, ação gráfica e um olhar atento sobre desejos humanos, pobreza e manipulação emocional. A produção mantém a estética crua do anime e condensa um arco complexo sem abandonar a intensidade narrativa que caracteriza Chainsaw Man.
Visão geral da obra e do filme
Chainsaw Man é uma obra que mistura violência estilizada e questões sociais. A história acompanha Denji, um jovem endividado que trabalha para matar demônios em troca de sobrevivência mínima. Sua vida muda quando ele se transforma no híbrido motosserra, entrando em um mundo de agentes especiais, demônios políticos e interesses internacionais.
O filme do Arco da Reze adapta o período em que Denji encontra Reze, uma jovem aparentemente gentil. O longa se concentra no conflito entre afeto e obrigação, explorando identidades duplas e motivações ocultas. Embora a narrativa reduza personagens e eventos para caber no formato cinematográfico, mantém-se o foco no impacto emocional e no choque entre romance e violência.

Trilha e ambientação sonora
A trilha sonora é um dos maiores acertos do filme. A produção usa composições que alternam entre silêncio tenso, arranjos melancólicos e sons explosivos. Esse contraste ajuda a marcar cada mudança de humor, reforçando a natureza caótica e imprevisível do arco.
A abertura “IRIS OUT” de Kenshi Yonezu retoma a atmosfera do anime com melodia animada, traço diferenciado e transições caóticas e divertidas. A cena da piscina com “In the pool” de Kensuke Ushio utiliza de suavidade e reflexão. A harmonia da cena progride sutilmente e cria contraste com o que a história revelará depois.
Um momento particularmente simbólico do filme ocorre quando Reze canta “Jane Slept in the Church”, música que carrega um subtexto direto com sua própria trajetória. Outrossim, é possível relacionar a personagem com o encerramento; cantada por Utada Hikaru e Kenshi Yonezu, “Jane Doe” é um termo usado para identificar mulheres desconhecidas ou sem nome em registros oficiais, ou seja, figuras que existem à margem, invisíveis para o mundo. Reze expõe esse sentimento de anonimato que atravessa sua história: uma jovem moldada por forças externas, tratada como peça descartável e com identidade reduzida a ser a “mulher bomba”. O contraste entre a suavidade da melodia e o peso simbólico do termo reforça a dualidade da personagem, que oscila entre o desejo de pertencer e o destino trágico de ser reduzida a “ninguém”.
Animação e direção de ação
A animação das lutas apresenta variações. Em diversas cenas, o filme exibe enquadramentos interessantes, uso eficiente de luz e sombras e estilo visual caótico. No entanto, o ritmo acelerado de produção do estúdio gera momentos com redução de quadros, especialmente na última batalha. Essa decisão afeta a fluidez e reduz o impacto de algumas sequências, principalmente próximas do final.
Apesar dessas limitações, o filme mantém coerência estética com o anime. A mistura de 2D e CGI é usada com moderação e algumas transformações demoníacas ganham composição visual marcante. Enfim, a direção de ação aposta mais em impacto dramático do que em clareza coreográfica, o que funciona dentro da proposta do arco, mas pode incomodar alguns espectadores.

Reze e Denji: manipulação, afeto e o “love-bombing”
A dinâmica entre Reze e Denji se apresenta como o centro emocional do filme. A aproximação deles acontece de forma rápida, intensa e carregada de afeto direcionado. Reze oferece atenção, carinho e promessa de liberdade de forma quase instantânea. Esse padrão lembra o comportamento conhecido como love-bombing, no qual uma pessoa usa excesso de afeto para criar dependência emocional.
Ademais, ao considerar que Reze é o “demônio da bomba”, o trocadilho se torna evidente: ela “detona” emocionalmente Denji com atenção explosiva, enquanto ele, carente e sem referências afetivas saudáveis, aceita tudo como verdade. O filme mostra essa manipulação sem suavizar suas consequências. O espectador reconhece que o vínculo construído é frágil, estratégico e desequilibrado.
Essa abordagem também reforça a trajetória de amadurecimento de Denji. O arco serve como um ponto de virada importante na forma como ele passa a enxergar relações humanas.

Crítica social e leitura política
O filme mantém um subtexto ligado ao capitalismo, elemento presente desde o início da obra. Denji representa o trabalhador precarizado: alguém que entrega seu corpo, seu tempo e sua vida em troca do mínimo para sobreviver. Seu valor é medido pela utilidade, criando uma metáfora direta para estruturas que exploram vulneráveis.
Reze surge como figura que promete ruptura. Ela aparece como alternativa ao sistema que prende Denji, mas esconde intenções próprias. Sua existência aponta para conflitos maiores entre nações e ideologias, sugerindo tensão geopolítica e manipulação institucional. A relação entre eles simboliza confronto entre liberdade desejada e controle social.
O filme não desenvolve tão explicitamente o discurso político, mas mostra o suficiente para reforçar que a narrativa de Chainsaw Man nunca se limita à violência gráfica, pois há sempre estrutura crítica por trás das escolhas e falas dos personagens. A presença da fábula do Rato do Campo e do Rato da Cidade no filme — originalmente uma narrativa atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga conhecido por suas fábulas, histórias moralizantes com animais antropomorfizados — é um dos exemplos desta leitura política.
Rato do Campo e do Rato da Cidade
A fábula questiona o que preferimos: a simplicidade segura do campo ou o luxo arriscado da cidade; esta dicotomia ecoa diretamente nas escolhas dos personagens. A moral da fábula exposta por Esopo — a ilusão da abundância e o preço da sobrevivência — ilumina a política que atravessa a narrativa: indivíduos tratados como ferramentas, empurrados para cenários de violência em nome de sistemas que prometem vantagem, mas entregam risco constante.
A fábula ganha novo peso quando cruzada com a resposta de Denji. Ele escolhe, sem hesitar, ser “o rato da cidade”, porque para ele o mínimo — três refeições por dia, um teto e trabalho — já parece um luxo impossível. No entanto, essa escolha, lida pela lente do capitalismo, revela-se uma falsa liberdade: Denji acredita ter ascendido, mas continua preso a um sistema que oferece apenas o suficiente para mantê-lo funcional, nunca pleno. Chainsaw Man usa desse artifício para expor a engrenagem de exploração: o trabalhador urbano, assim como o rato da cidade, vive cercado de supostos privilégios, mas paga por eles com riscos constantes, controle institucional e perda de autonomia.
A ilusão de bem-estar encobre o fato de que o “mínimo garantido” é calculado para mantê-lo dependente. Assim, o filme reinterpreta a moral clássica ao mostrar que Denji não escolhe verdadeiramente; ele apenas aceita o que o sistema permite, acreditando que isso é felicidade — quando, na prática, é apenas sobrevivência embalada como promessa de progresso. Desse modo, a metáfora se amplia, sugerindo que os personagens, assim como os ratos da história, não escolhem verdadeiramente onde viver; eles apenas tentam sobreviver ao ambiente que os devora.

Conclusão
O filme apresenta uma experiência equilibrada. Possui trilha sonora forte, estética diferenciada e análise simbólica interessante da relação entre Reze e Denji. A animação de ação, apesar de limitada em alguns trechos, não compromete completamente a força narrativa. Aliás, apesar de tratar de tópicos sensíveis (love-bombing, exploração de trabalhadores, mortes, etc.) o drama não consome a comicidade da narrativa; pelo contrário os dois aspectos se unem desenvolvendo cada tema com respeito e leveza.
O longa funciona tanto como adaptação fiel quanto como obra que reforça as bases temáticas do mangá: manipulação emocional, desigualdade, exploração e o custo de desejar algo maior que a própria sobrevivência. Em contrapartida, as cenas cômicas podem nos fazer rir da nossa própria situação, pois quando rimos da ingenuidade de Denji percebemos também que não somos tão diferentes.
É um filme tecnicamente competente, visualmente marcante e rico musicalmente — mesmo que não atinja o ápice do potencial da obra, ele cumpre bem o que se propõe a fazer.

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