Ali G escolheu voltar justamente quando uma piada politicamente incorreta pode incendiar a internet antes mesmo de chegar ao fim do trailer.
Resultado: o tradicional Booyakasha! encontrou um adversário novo, menos interessado em entrevistas absurdas e mais próximo do botão “encaminhar para todos”.
Poucos dias depois de a Amazon MGM divulgar o primeiro trailer de Ali G: Who Iz I?, uma campanha internacional começou a pressionar redes de cinema a não exibirem o filme.
A iniciativa, organizada pela NewsCord, acusa o personagem de usar a sátira como disfarce para perpetuar estereótipos racistas.
O boicote entrou no modo rajada
Segundo a Variety, mais de 36 mil e-mails já haviam sido enviados às redes de cinema até sexta-feira, 28 de agosto.
O número, porém, merece uma pequena legenda antes que alguém o transforme em placar de reality show.
A plataforma da NewsCord permite que cada participante envie mensagens personalizadas para várias exibidoras. Portanto, estamos falando de e-mails disparados, não necessariamente de 36 mil pessoas diferentes apoiando a campanha.
Entre os alvos estão redes do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Europa, México e Oriente Médio.
No texto da mobilização, a organização afirma que Ali G recupera dreadlocks falsos, elementos ligados à cultura jamaicana e uma caricatura da linguagem urbana britânica que já era criticada quando o personagem surgiu, em 1998. A campanha pode ser consultada diretamente no site da NewsCord.
A piada envelheceu ou o público perdeu o “restecp”?
Ali G foi criado como um jovem branco de Staines que imita, sem compreender, elementos das culturas negra, hip-hop e jamaicana.
Em teoria, o alvo da sátira seria justamente o sujeito privilegiado que transforma identidades alheias em fantasia.
O problema é que uma sátira não controla quem recebe o tapa. Críticos negros britânicos questionam há décadas se o público realmente ri da apropriação cultural praticada pelo personagem ou se apenas ganha uma licença confortável para rir da cultura imitada.
Quase 30 anos depois, essa dúvida voltou usando dreadlocks falsos e óculos coloridos. Para os defensores de Ali G, a caricatura continua ridicularizando um homem branco ignorante.
Para os críticos, a intenção não apaga o resultado, especialmente quando as comunidades reproduzidas na tela não se reconhecem na piada.
Picturehouse apertou o eject? Calma, meu chapa
A NewsCord retirou a Picturehouse de sua lista de destinatários depois que a rede britânica respondeu não possuir “planos atuais” para exibir o filme. Algumas manchetes rapidamente trataram a declaração como a primeira grande vitória do boicote.
Contudo, a situação não está tão resolvida quanto o Ctrl+C e Ctrl+V jornalístico fez parecer. Conforme apurado pela Variety, a resposta enviada pela Picturehouse seria um modelo padrão utilizado para filmes que ainda não foram programados pela empresa.
Além disso, a rede costuma priorizar produções independentes e de perfil mais artístico, o que já tornava incerta a presença de Ali G: Who Iz I? em suas salas.
Até agora, nenhuma exibidora confirmou ter retirado o longa de sua programação por causa da campanha. A pressão organizada existe, os milhares de e-mails também, mas o suposto nocaute ainda não passou pela arbitragem dos fatos.
Quem iz o alvo agora?
Escrito, dirigido, produzido e estrelado por Sacha Baron Cohen, Ali G: Who Iz I? chega aos cinemas em 23 de outubro.
O longa marca a volta do personagem ao cinema 24 anos depois de Ali G Indahouse e colocará novamente pessoas reais diante do falso entrevistador mais sem noção de Staines.
O trailer oficial já indicava que Baron Cohen esperava controvérsia. Resta saber se o novo filme conseguirá atualizar a sátira ou apenas desenterrará uma caricatura que ficou presa em 1998.
Por enquanto, Ali G voltou perguntando “Who Iz I?”, mas parte do público parece mais interessada em outra questão: quem, exatamente, ainda está rindo?
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