Batman, Bob Esponja, Harry Potter, Star Trek, Superman, Transformers, HBO, Nickelodeon, CNN e CBS estão prestes a descobrir se existe espaço suficiente no mesmo grupo de WhatsApp corporativo.

A Justiça dos Estados Unidos aprovou o acordo firmado entre a Paramount Skydance e os 12 estados que tentavam bloquear a aquisição da Warner Bros. Discovery. A decisão, assinada pela juíza federal Araceli Martínez-Olguín em 30 de setembro, remove a última grande barreira judicial da operação.

Paramount e Warner Bros. Discovery esperam concluir a fusão em 6 de outubro de 2026, embora o fechamento ainda dependa das condições finais previstas no contrato.

Portanto, Batman já pode escolher o lado do sofá de Bob Esponja, mas as chaves da casa ainda não foram oficialmente entregues.

O último chefão usava toga

O processo foi apresentado por uma coalizão liderada pela Califórnia. Os estados argumentavam que a união de duas das cinco grandes estruturas históricas de Hollywood poderia reduzir a concorrência, elevar preços e diminuir as opções oferecidas ao público, especialmente nos cinemas e na televisão por assinatura.

Martínez-Olguín homologou o acordo negociado entre as partes e considerou a solução justa, razoável e capaz de responder aos danos concorrenciais apontados na ação.

A aprovação não significa que a Justiça tenha concluído que juntar meia Hollywood dentro da mesma mochila seja inofensivo. Significa que o tribunal aceitou os compromissos oferecidos pela Paramount como solução suficiente para encerrar o processo.

A operação é avaliada em aproximadamente US$ 111 bilhões quando consideradas as dívidas. Com o fechamento, franquias e empresas como DC, HBO, Harry Potter, Cartoon Network, CNN e Warner Bros. Games passarão a dividir o teto corporativo com Star Trek, Transformers, Nickelodeon, CBS, Paramount+, Pluto TV e as diferentes divisões da Skydance.

A fusão ganhou uma lista de tarefas

As promessas feitas durante as negociações agora fazem parte de um acordo judicialmente fiscalizável.

Nos dois primeiros anos após a conclusão da compra, a nova companhia deverá distribuir pelo menos 30 filmes por ano nos cinemas norte-americanos. Nos três anos seguintes, a meta sobe para 32 lançamentos anuais.

Existe uma observação importante escondida nas letras miúdas: apenas metade desses títulos precisará ser produzida ou coproduzida diretamente pelo grupo. Ainda assim, a obrigação representa um compromisso considerável numa época em que grandes estúdios reduzem lançamentos e empurram produções diretamente para o streaming.

A Paramount também deverá investir US$ 1,5 bilhão adicional em produções realizadas nos Estados Unidos durante cinco anos. Se descumprir as metas cinematográficas, poderá ser obrigada a vender a Miramax e pagar US$ 30 milhões por filme não lançado a fundos ligados à saúde e à aposentadoria de trabalhadores da indústria.

Outros US$ 47,5 milhões irão para o treinamento e desenvolvimento profissional de funcionários afetados pela fusão. Ou seja: dessa vez, a planilha não serve apenas para cancelar projetos; ela também ganhou obrigações, multas e um juiz olhando por cima do monitor.

CNN e CBS ganharão conselho… e vigilância

O acordo também alcança duas das maiores operações jornalísticas do grupo.

Em até 180 dias depois do fechamento, a companhia deverá formar um Conselho de Independência Editorial para acompanhar CNN e CBS News. O órgão terá cinco jornalistas ativos ou aposentados, todos com pelo menos dez anos de experiência.

Paramount e Warner também deverão negociar separadamente, durante cinco anos, os contratos de distribuição de seus atuais canais básicos de televisão por assinatura. Se essa separação não for respeitada, o tribunal poderá determinar a venda de ativos.

As medidas não eliminaram as críticas. Grupos contrários à operação consideram que o acordo impõe obrigações temporárias, mas não resolve definitivamente a concentração de poder provocada pela fusão. Colorado e Washington, embora participem do acordo mais amplo, não aderiram às condições relacionadas ao conselho editorial.

O homem da Barbie foi chamado para organizar a casa

A Paramount também escolheu Ynon Kreiz, presidente da Mattel desde 2018, para dividir o comando da futura companhia com David Ellison.

Kreiz liderou a transformação da fabricante de brinquedos numa empresa concentrada em marcas e licenciamento, processo que culminou no sucesso bilionário de Barbie. Antes da Mattel, o executivo passou pela Endemol, pela Fox Kids Europe e pela Maker Studios.

Quando a fusão for concluída, Ellison continuará responsável pela estratégia de longo prazo, direção criativa, tecnologia, relações com talentos e investimentos. Kreiz cuidará das operações cotidianas e da integração das duas empresas — tarefa que deve parecer um pouco mais complicada do que guardar todas as Barbies na mesma caixa.

O grupo pretende economizar mais de US$ 6 bilhões, enquanto administra aproximadamente US$ 80 bilhões em dívidas combinadas. Kreiz começará a trabalhar na Paramount em 5 de outubro e assumirá formalmente como copresidente-executivo depois do fechamento da aquisição.

Paramount e Warner continuarão existindo

Em 2 de outubro, Ellison anunciou que a empresa resultante da fusão será chamada simplesmente de Skydance. A alteração do nome jurídico para Skydance Corporation está prevista para 6 de outubro, junto da migração das ações para a Bolsa de Nova York sob o código “SKYD”.

A escolha não significa que os nomes Paramount ou Warner Bros. desaparecerão dos filmes. Segundo Ellison, a intenção é dar uma identidade própria à companhia controladora sem apagar as duas marcas centenárias.

Na prática, Paramount Pictures e Warner Bros. Pictures deverão permanecer como estúdios distintos dentro do mesmo conglomerado — uma espécie de condomínio cinematográfico em que todos conservam a placa na porta, mas respondem ao mesmo síndico.

E o que acontece com HBO Max e Paramount+?

As empresas não apresentaram um plano para fundir HBO Max e Paramount+, eliminar algum dos serviços ou criar um pacote conjunto. Também não divulgaram uma reorganização definitiva das franquias, mudanças nos calendários de DC e Star Trek ou demissões relacionadas ao fechamento.

Até a conclusão da operação, Paramount e Warner Bros. Discovery continuam funcionando como companhias independentes. Qualquer integração prática deverá ser detalhada posteriormente.

A Liga da Justiça corporativa ainda não posou para a foto

A decisão judicial colocou a megafusão na última volta, mas a bandeirada somente deverá cair em 6 de outubro. Até lá, ainda é mais preciso dizer que a compra foi autorizada e está próxima do fechamento, não que ela já foi consumada.

Se tudo ocorrer conforme o calendário, nascerá um dos maiores conglomerados de entretenimento do planeta, reunindo super-heróis, bruxos, robôs alienígenas, esponjas falantes, canais de notícias e uma dívida capaz de assustar até Bruce Wayne.

Batman e Bob Esponja realmente poderão morar sob o mesmo teto. Resta saber se o resultado será um crossover histórico ou apenas a reunião de condomínio mais cara de Hollywood.

 

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