Existem personagens que recebem uma voz; Optimus Prime recebeu Peter Cullen.
O ator canadense morreu na quarta-feira, 26 de agosto, aos 85 anos, em sua casa em Los Angeles. A informação foi confirmada por seu agente, Kevin Motley, enquanto a família pediu que seu legado fosse honrado com compaixão, integridade e uma ideia que acompanhou Cullen durante boa parte da vida: ser forte o bastante para permanecer gentil.
A causa da morte, no entanto, não foi divulgada.
Cullen construiu uma carreira de mais de cinco décadas praticamente sem precisar mostrar o rosto. Ainda assim, bastavam algumas palavras naquele barítono para uma geração inteira saber que os Autobots tinham acabado de chegar.
De Montreal para os microfones

Peter Claver Cullen nasceu em 28 de julho de 1941, em Montreal, no Canadá. Interessado inicialmente em atuação, integrou a primeira turma formada pela National Theatre School of Canada, concluindo os estudos em 1963.
Sua carreira começou longe de Cybertron. Cullen trabalhou em rádio em Montreal, incluindo a estação CKGM, além de participar de produções de comédia canadenses. Ainda nos anos 1960, passou para a televisão e tornou-se locutor de The Smothers Brothers Comedy Hour entre 1967 e 1969. Mais tarde, apareceu regularmente em The Sonny & Cher Comedy Hour, entre 1971 e 1974.
Aos poucos, aquela voz grave começou a encontrar um mercado perfeito.
Antes de Optimus Prime, Cullen já havia feito trabalhos de dublagem e efeitos vocais. Em King Kong, de 1976, por exemplo, ajudou a criar a voz do gigantesco primata. A partir dos anos 1980, tornou-se presença constante em animações norte-americanas.
Então apareceu um caminhão.
Relembre sua trajetória
- 1976 | King Kong: emprestou vocalizações à criatura gigante no remake estrelado por Jeff Bridges.
- 1982 | A Supermáquina: deu voz a K.A.R.R., protótipo maligno e praticamente o irmão problemático de K.I.T.T.
- 1984 | The Transformers: estreou como Optimus Prime, comandante dos Autobots e papel que definiria sua carreira.
- 1987 | O Predador: criou os famosos estalidos e cliques da criatura alienígena, trabalho no qual nem sequer precisou pronunciar uma palavra.
- 1988 | As Novas Aventuras do Ursinho Pooh: interpretou Ió, o burrinho melancólico cuja tristeza permanente mostrou o extremo oposto da imponência de Optimus.
- 2007 | Transformers: voltou como Optimus Prime no cinema live-action, apresentando sua interpretação a uma nova geração.
- 2010 | Transformers: Prime: retomou o Autobot na televisão; o trabalho lhe rendeu uma indicação ao Daytime Emmy em 2011.
- 2023 | Transformers: O Despertar das Feras: voltou mais uma vez como Optimus, quase quatro décadas depois de ter criado a voz do personagem.
Do burrinho deprimido ao caçador alienígena
A variedade do currículo de Cullen chega a ser divertida.
O mesmo homem que fazia Optimus Prime soar como alguém capaz de comandar um exército intergaláctico também conseguia transformar Ió numa pequena nuvem cinzenta de desânimo ambulante.
Depois, em O Predador, provou que nem precisava de palavras. Cullen criou os sons característicos do alienígena, inspirando-se, segundo contou, no ruído produzido por um caranguejo-ferradura agonizante.
Autoridade, melancolia e ameaça: tudo saindo das mesmas cordas vocais.
Em 2023, sua contribuição à animação foi reconhecida com um prêmio pelo conjunto da obra no Children’s & Family Emmy Awards.
Optimus nasceu da voz de um verdadeiro soldado
Quando fez o teste para Transformers, em 1984, Cullen sabia basicamente que interpretaria um caminhão que se transformava em robô. Para encontrar a personalidade do personagem, porém, pensou no irmão mais velho, Larry, veterano dos Marines na Guerra do Vietnã e seu grande exemplo de liderança.
Em vez de fazer Optimus soar como um super-herói berrando ordens, Cullen tomou emprestados do irmão a serenidade, a autoridade e a ideia de que um verdadeiro líder não precisava demonstrar força o tempo inteiro.
Dessa forma, o resultado definiu Optimus Prime por mais de 40 anos.
Quando a franquia chegou ao cinema com Michael Bay, em 2007, houve novos robôs, novos efeitos e toneladas de metal digital voando pela tela. A voz, porém, continuou sendo aquela.
Cullen retornou em diversas produções, incluindo Revenge of the Fallen, Dark of the Moon, Age of Extinction, The Last Knight, Bumblebee e Rise of the Beasts.
Pois é… Algumas peças realmente não precisavam de upgrade.
Mais que a voz de um caminhão
Cullen nunca escondeu que Optimus ocupava um lugar diferente em sua carreira.
Em entrevistas, contava que encontros com fãs frequentemente terminavam com adultos emocionados diante dele, muitas vezes mais comovidos que os próprios filhos que haviam levado às convenções.
Faz sentido.
Para muita gente, Optimus Prime não era apenas o robô grande que virava caminhão. Ele era o líder que tentava fazer a coisa certa mesmo quando a solução mais fácil seria esmagar um Decepticon contra uma parede.
Cullen colocou humanidade numa máquina… E fez isso lembrando do irmão.
A família recuperou justamente essa essência ao se despedir: força suficiente para ser gentil.
Peter Cullen deixa quatro filhos, Angus, Claire, Pilar e Clay.
Sua voz, porém, ficou espalhada por desenhos, filmes, videogames e pela memória de várias gerações.
Os Autobots perderam seu comandante.
Mas, em algum lugar, sempre que um caminhão vermelho e azul começar a se transformar, milhões de fãs ainda saberão exatamente qual voz deveria sair dali.
Autobots, transformem-se… Desta vez, em saudade.
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