Patrick Stewart passou boa parte da carreira interpretando homens capazes de manter a serenidade quando o universo parecia prestes a desabar.
Jean-Luc Picard negociava antes de disparar; Charles Xavier enxergava humanidade até onde o medo só encontrava inimigos. Já fora das grandes franquias, o ator atravessava Shakespeare com a mesma autoridade que levava à ponte da Enterprise.
Agora, a cultura pop perde uma de suas vozes mais reconhecíveis, pois o ator britânico morreu na última quarta-feira, 28 de outubro, aos 86 anos, em sua casa em Los Angeles.
Segundo sua representante de longa data, Kelly Bush Novak, Stewart enfrentava Alzheimer e demência com corpos de Lewy. Ele passou seus últimos momentos cercado por familiares e amigos, com música, orações, lágrimas e risadas. A causa imediata da morte não foi detalhada.
A última missão foi cercada de afeto
O comunicado divulgado pela família descreveu uma despedida tranquila, conduzida pelo mesmo afeto que Stewart inspirou durante mais de seis décadas de trabalho.
Pois é, sua presença carregava uma combinação rara. Afinal, Stewart podia transformar uma ordem militar em reflexão filosófica, dar dignidade shakespeariana a uma aventura espacial e interpretar um telepata superpoderoso sem permitir que o uniforme ou a cadeira de rodas engolissem o homem por trás do símbolo.
Não por acaso, seu legado atravessa públicos que nem sempre dividem a mesma fileira. Para alguns, ele será eternamente o capitão Picard; para outros, o Professor Xavier. Para o teatro britânico, porém, Stewart continuou sendo um dos grandes intérpretes de Shakespeare de sua geração.
Quando duas demências dividem o mesmo cérebro
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva e a forma mais comum de demência. Ela compromete gradualmente a memória, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades cotidianas.
A demência com corpos de Lewy também é progressiva, mas está associada ao acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína no cérebro. A condição pode afetar atenção, percepção visual, movimentos, comportamento, sono, humor e funções involuntárias do organismo. Seus sinais frequentemente se confundem com os do Alzheimer e do Parkinson, o que pode tornar o diagnóstico particularmente complexo.
Sendo assim, as duas doenças podem coexistir. Atualmente, não existe cura para a demência com corpos de Lewy, embora tratamentos possam ajudar a controlar determinados sintomas. O comunicado sobre Stewart não informou quais manifestações ele apresentou nem quando recebeu os diagnósticos, portanto qualquer reconstrução de seus últimos meses seria especulação.
De Yorkshire à ponte da Enterprise

Patrick Hewes Stewart nasceu em 13 de julho de 1940, em Mirfield, no condado inglês de West Yorkshire. Filho de uma trabalhadora têxtil e de um militar, cresceu num ambiente marcado pela violência doméstica cometida pelo pai contra sua mãe.
O teatro se tornou abrigo antes de virar profissão. Incentivado por um professor a descobrir Shakespeare, Stewart deixou a escola aos 15 anos e chegou a trabalhar brevemente como repórter. Depois, estudou na Bristol Old Vic Theatre School e passou por companhias de repertório até ingressar, em 1966, na Royal Shakespeare Company.
Ali, construiu uma carreira que nenhuma frota espacial conseguiria resumir. Interpretou personagens como Rei João, Oberon, Shylock, Titus Andronicus, Marco Antônio, Próspero e Cláudio. Ao longo dos anos, participaria de mais de 60 produções da companhia.
Assim, a televisão britânica abriu as primeiras escotilhas para um público maior. Stewart apareceu em produções como Eu, Cláudio e Tinker Tailor Soldier Spy, antes de chegar ao cinema em títulos como Excalibur e Duna.
Então, em 1987, Gene Roddenberry lhe entregou a Enterprise.
Faça acontecer: nasce o capitão Picard
Jean-Luc Picard não era outro James T. Kirk. O capitão de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração preferia diplomacia, arqueologia, literatura e uma boa xícara de chá Earl Grey antes de partir para o confronto. Ainda assim, quando precisava assumir o comando, bastavam duas palavras: “Faça acontecer”.
Stewart interpretou Picard durante as sete temporadas da série, exibidas entre 1987 e 1994. Depois, conduziu a tripulação ao cinema em Star Trek: Generations, Primeiro Contato, Insurreição e Nêmesis.
Décadas mais tarde, retornou ao personagem em Star Trek: Picard, produção exibida entre 2020 e 2023. A última temporada reuniu novamente a tripulação de A Nova Geração, oferecendo ao capitão uma despedida mais calorosa do que aquela recebida nos cinemas.
Picard transformou Stewart num ícone da ficção científica. O ator, porém, ainda encontraria outra escola precisando de um diretor.
O professor que acreditava no futuro
Em 2000, Stewart apareceu como Charles Xavier no primeiro X-Men. Sua formação teatral ajudou a conferir peso a um filme lançado quando adaptações de quadrinhos ainda precisavam provar que podiam ser levadas a sério.
Ao lado de Ian McKellen, seu amigo e intérprete de Magneto, Stewart transformou o conflito entre mutantes numa discussão sobre preconceito, radicalização, convivência e medo. Xavier acreditava na integração; Magneto já havia perdido a paciência com a humanidade.
Stewart retornou ao personagem em diferentes fases da franquia, incluindo X-Men 2, O Confronto Final, Dias de um Futuro Esquecido e Logan. Neste último, apresentou uma versão frágil e devastadora do antigo líder dos mutantes, agora envelhecido e incapaz de controlar plenamente a própria mente.
Também participou de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, em 2022. Seu retorno como Xavier em Vingadores: Doutor Destino já havia sido oficialmente confirmado pela Marvel. O filme, previsto para dezembro de 2026, será lançado postumamente.
Um cavaleiro em todos os palcos
Mesmo cercado por naves, mutantes e multiversos, Stewart nunca abandonou o teatro. Apresentou durante anos uma versão solo de Um Conto de Natal, dividiu o palco com Ian McKellen em Esperando Godot e Terra de Ninguém e interpretou Cláudio numa montagem de Hamlet protagonizada por David Tennant.
Ao longo da carreira, recebeu três prêmios Olivier, além de um Grammy e indicações ao Emmy, Globo de Ouro e Tony. Em 2010, foi nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth II por seus serviços ao teatro, tornando-se oficialmente Sir Patrick Stewart.
Além disso, fora das telas, usou a própria história para combater a violência doméstica. Stewart tornou-se patrono da organização britânica Refuge e falou publicamente sobre as agressões sofridas por sua mãe. Aquele menino que encontrara segurança no palco passou a ajudar outras pessoas a encontrarem uma saída.
Relembre sua trajetória
De Shakespeare à última fronteira, relembre alguns dos trabalhos que transformaram Patrick Stewart em cavaleiro dos palcos e capitão definitivo da cultura geek:
- 1966: ingressa na Royal Shakespeare Company;
- 1976: participa da aclamada minissérie Eu, Cláudio;
- 1979: aparece em Tinker Tailor Soldier Spy e conquista seu primeiro Olivier por Antônio e Cleópatra;
- 1981: interpreta Leondegrance em Excalibur;
- 1984: vive Gurney Halleck em Duna, de David Lynch;
- 1987 a 1994: comanda a Enterprise em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração;
- 1994 a 2002: leva Jean-Luc Picard a quatro filmes da franquia;
- 2000: estreia como Charles Xavier em X-Men;
- 2008: interpreta Cláudio em Hamlet, papel que lhe renderia outro Olivier;
- 2009: divide o palco com Ian McKellen em Esperando Godot;
- 2015: assume um raro papel de vilão no suspense Sala Verde;
- 2017: apresenta uma versão dolorosamente humana de Xavier em Logan;
- 2020 a 2023: retorna ao comando em Star Trek: Picard;
- 2022: entra oficialmente no MCU em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura;
- 2023: publica a autobiografia Making It So;
- 2026: retorna postumamente como Professor Xavier em Vingadores: Doutor Destino.
O comando permanece
Enfim, Patrick Stewart interpretou capitães, reis, feiticeiros, professores e homens despedaçados. Em todos eles, porém, havia algo reconhecível: a crença de que autoridade sem humanidade é apenas força vestida de uniforme.
Infelizmente, a Enterprise perdeu seu capitão; os mutantes perderam seu professor e o teatro perdeu um de seus grandes cavaleiros.
Mas, enquanto alguém escolher a diplomacia antes do disparo, encontrar coragem nas palavras de Shakespeare ou acreditar que pessoas diferentes ainda podem construir um futuro juntas, Patrick Stewart continuará na ponte.
O homem partiu; o comando, porém, permanece. Descanse em paz.
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