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A televisão brasileira perde outra de suas grandes damas | Morre Glória Menezes, aos 91 anos

Glória Menezes viveu muitas vidas diante das câmeras.

Foi a atormentada Lara de Irmãos Coragem, a popular Ana Preta de Pai Herói, a impagável Rosemere de Brega & Chique e, quando o público já estava acostumado a gostar dela, resolveu dar motivos para ser odiada como a inesquecível Laurinha Figueroa de Rainha da Sucata.

Poucas atrizes tiveram tanto tempo e tanto talento para mudar de rosto sem deixar de ser reconhecidas.

Glória teve.

Durante mais de seis décadas, ela esteve diante das câmeras interpretando mocinhas, mães, mulheres populares, socialites, personagens atormentadas e até vilãs capazes de fazer o público esquecer por alguns capítulos todo aquele carinho acumulado pela atriz.

Dessa forma, ela estava entre as artistas que ajudaram a transformar a interpretação televisiva no país, participou da primeira telenovela diária da televisão brasileira, esteve no único longa nacional vencedor da Palma de Ouro em Cannes e atravessou gerações em dezenas de produções.

Porém, infelizmente, nesta terça-feira (18), a dramaturgia brasileira perdeu mais um pedaço de sua própria história, despedindo-se de Glória Menezes que morreu aos 91 anos.

E a despedida ganha um peso ainda mais doloroso: ocorre poucas horas depois da morte de Laura Cardoso, aos 98.

Duas pioneiras. Duas carreiras gigantescas.

E duas luzes fundamentais da televisão brasileira apagadas praticamente no mesmo dia.

Despedida: o adeus a Glória Menezes

Segundo informações confirmadas por sua assessoria, a atriz morreu de causas naturais.

Ela deixa três filhos: Maria Amélia Brito e João Paulo Brito, frutos de seu primeiro casamento, com Arnaldo Brito, e o ator Tarcísio Filho, de sua união com Tarcísio Meira.

Glória e Tarcísio permaneceram juntos por quase seis décadas, até a morte do ator, em 2021, aos 85 anos, em decorrência de complicações da Covid-19.

Fora das telas, os dois se transformaram em um daqueles raros casais cuja própria história passou a fazer parte da memória afetiva do público.

Nas telas… bem, eles tiveram bastante tempo para ensaiar.

Antes de Glória, existia Nilcedes

Glória Menezes nasceu em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

E Glória Menezes não era seu nome de nascimento.

A futura estrela da televisão foi registrada como Nilcedes Soares de Magalhães, nome formado a partir dos nomes de seus pais, Nilo e Mercedes.

Ainda criança, mudou-se com a família para São Paulo.

Na juventude, aproximou-se definitivamente da atuação. Estudou na Escola de Arte Dramática e participou da criação do grupo de teatro amador Jovens Independentes.

Em 1959, recebeu um prêmio de atriz revelação em um festival de teatro amador promovido por Antunes Filho.

Naquele mesmo ano, estreou na televisão em Um Lugar ao Sol.

Foi o começo de uma ascensão quase inacreditavelmente rápida.

Poucos anos depois, ela já estaria no centro de dois capítulos fundamentais da história do audiovisual brasileiro.

Antes das novelas, uma Palma de Ouro

Em 1960, impressionado com seu trabalho no teatro, o cineasta Anselmo Duarte convidou Glória para participar de O Pagador de Promessas.

O filme chegou aos cinemas em 1962. E então aconteceu algo que nenhum outro longa-metragem brasileiro conseguiu repetir até hoje.

O Pagador de Promessas conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Glória interpretava Rosa, esposa de Zé do Burro, personagem de Leonardo Villar.

O cinema brasileiro entrava para a história e aquela atriz que havia começado profissionalmente poucos anos antes estava dentro dela.

Mas ainda faltava outra revolução, desta vez, na televisão.

Relembre sua trajetória: quando a novela virou diária

Os primeiros capítulos de uma lenda

  • 1959 — Um Lugar ao Sol: foi a estreia de Glória Menezes nas telenovelas. O trabalho veio no mesmo ano em que a atriz começava a ganhar reconhecimento também nos palcos.
  • 1962 — O Pagador de Promessas — Rosa: no cinema, viveu Rosa, esposa de Zé do Burro. O longa de Anselmo Duarte conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e entrou definitivamente para a história do cinema brasileiro.
  • 1963 — 2-5499 Ocupado — Emily: um marco da televisão nacional. Glória interpretava uma presidiária que trabalhava como telefonista e se apaixonava pela voz do advogado Larry, interpretado por Tarcísio Meira. A produção da TV Excelsior é reconhecida como a primeira telenovela diária da televisão brasileira.

E existe um detalhe impossível de ignorar: Glória e Tarcísio também se casaram um pouco antes do tranalho em 2-5499 Ocupado … A parceria estava só começando.

A Globo e os anos das grandes heroínas

  • 1967 — Sangue e Areia — Doña Sol: marcou a estreia de Glória Menezes nas novelas da Globo. Como Doña Sol, formou novamente par romântico com Tarcísio Meira e consolidou sua presença entre as grandes protagonistas da emissora.
  • 1969 — Rosa Rebelde — Rosa Malena: Glória e Tarcísio voltaram a formar um casal central em uma produção de Janete Clair, fortalecendo uma parceria televisiva que se tornaria uma das mais famosas do país.
  • 1970 — Irmãos Coragem — Lara/Diana/Márcia: um dos maiores desafios de sua carreira. A atriz interpretava uma mulher dividida entre três personalidades distintas: a recatada Lara, a extravagante Diana e a equilibrada Márcia. A novela tornou-se um enorme sucesso da televisão brasileira.
  • 1971 — O Homem que Deve Morrer: mais uma parceria com Janete Clair e Tarcísio Meira, em uma fase em que o casal já era presença constante entre os protagonistas da televisão.

  • 1973 — Cavalo de Aço: Glória integrou a novela de Walther Negrão, novamente ao lado de Tarcísio.
  • 1973 — O Semideus: no mesmo ano, voltou ao universo de Janete Clair em outra produção protagonizada pelo casal.
  • 1975 — O Grito — Marta: viveu uma mãe angustiada diante das dificuldades enfrentadas pelo filho, em uma das novelas mais densas de Jorge Andrade.
  • 1977 — Espelho Mágico — Leila Lombardi: Glória interpretava uma grande estrela da teledramaturgia chamada Leila Lombardi. Era, portanto, uma estrela da televisão interpretando… uma estrela da televisão. A personagem era casada com Diogo Maia, vivido por Tarcísio Meira.

Ana Preta muda o jogo

  • 1979 — Pai Herói — Ana Preta: um dos personagens mais importantes de sua trajetória. Ana Preta era uma mulher popular, independente, mãe solteira e dona do cabaré Flor de Lys. A personagem se envolvia com André Cajarana, vivido por Tony Ramos, e fez enorme sucesso entre o público. Para uma atriz frequentemente associada às mulheres elegantes e sofisticadas da televisão, Ana Preta representou também uma mudança importante de registro. E funcionou. Muito.
  • 1981 — Jogo da Vida — Jordana: Glória viveu uma mulher alegre e espontânea que precisa se adaptar a um novo ambiente social depois que o marido enriquece. O casamento entra em crise e Jordana precisa reconstruir a própria vida.

  • 1983 — Guerra dos Sexos: na comédia de Silvio de Abreu, voltou a contracenar com Tarcísio Meira — embora, desta vez, seus personagens não terminassem juntos.
  • 1984 — Corpo a Corpo — Tereza: sob o texto de Gilberto Braga, Glória assumiu uma personagem marcada pela vingança e mostrou novamente que seu currículo podia ir muito além das heroínas românticas.

Do brega ao chique… e depois direto para o lado sombrio

  • 1987 — Brega & Chique — Rosemere: Glória interpretou Rosemere, mulher simples e batalhadora cuja vida muda radicalmente depois do desaparecimento do homem que conhecia como Mário. A personagem descobre posteriormente que ele mantinha outra identidade e outra família.
  • 1988 — Tarcísio & Glória: o casal ganhou um seriado próprio. A produção brincava justamente com a força da dupla na televisão, embora os dois interpretassem personagens ficcionais.

Então chegou 1990. E Glória decidiu que estava na hora de provar que sabia ser má. Muito má.

  • 1990 — Rainha da Sucata — Laurinha Figueroa: uma das grandes vilãs da carreira de Glória Menezes. Socialite sofisticada, Laurinha nutria uma paixão pelo próprio enteado, Edu, vivido por Tony Ramos, e tornou-se a principal rival de Maria do Carmo, personagem de Regina Duarte.

A eterna mocinha havia atravessado para o outro lado. E descobriu que também sabia jogar como vilã.

Uma nova geração conhece Glória Menezes

  • 1992 — Deus nos Acuda: Glória voltou ao universo de Silvio de Abreu em outra comédia marcada pela crítica social.
  • 1995 — A Próxima Vítima — Júlia Braga: interpretou uma elegante viúva da alta sociedade paulista que se dedicava ao trabalho social e acabava profundamente envolvida na vida da família.
  • 1998 — Torre de Babel: participou de outro grande sucesso de Silvio de Abreu, autor recorrente em sua trajetória.
  • 2001 — Porto dos Milagres: Glória entrou nos anos 2000 ainda como presença constante nas grandes produções da emissora. Nesta produção, fez uma participação especial na primeira fase da trama como Dona Coló, uma ex-cafetina detentora de grandes segredos do passado.

  • 2002 — O Beijo do Vampiro — Zoroastra: aqui está uma conexão particularmente boa com o público do Teoria Geek.

Em uma novela cheia de vampiros, poderes sobrenaturais e batalhas entre o bem e o mal, Glória viveu a excêntrica Zoroastra.

Sim, Glória Menezes também teve sua fase sobrenatural.

Das grandes novelas à despedida

  • 2004 — Senhora do Destino — Baronesa de Bonsucesso: Glória fez uma participação na novela de Aguinaldo Silva, outro dos gigantescos fenômenos de audiência dos anos 2000.
  • 2006 — Páginas da Vida — Amália: interpretou Amália, integrando o extenso elenco da novela de Manoel Carlos.
  • 2008 — A Favorita — Irene Fontini: Glória viveu Irene, mulher culta, elegante e ética, esposa de Gonçalo e mãe de Marcelo. A trama ainda reservou um delicioso reencontro: Irene havia sido apaixonada por Copola, interpretado por Tarcísio Meira. Até dentro da ficção parecia difícil separar os dois.
  • 2013 — Joia Rara: fez uma participação na novela das seis, já com mais de cinco décadas de televisão no currículo.

  • 2015–2016 — Totalmente Demais — Stelinha: em sua última novela, Glória interpretou a sofisticada mãe de Arthur, personagem de Fábio Assunção. Morando no exterior, Stelinha retornava ao Brasil e ajudava Eliza, vivida por Marina Ruy Barbosa, ensinando-lhe etiqueta e comportamento.

Foi sua despedida das novelas, mas não sua última aparição na televisão.

Em 2018, participou de Tá no Ar: a TV na TV. Em 2020, apareceu ao lado de Tarcísio Meira no especial Os Casais que Amamos. Já em 2025, sua trajetória foi celebrada pela série documental Tributo, do Globoplay.

Glória e Tarcísio: quando ficção e vida se misturaram

É praticamente impossível contar a história de Glória Menezes sem falar de Tarcísio Meira.

Mas é igualmente importante não permitir que essa história apague aquilo que ela construiu individualmente.

Os dois se conheceram no meio artístico e se casaram em 1963. Juntos, tornaram-se um dos casais mais conhecidos do Brasil.

Contracenaram incontáveis vezes, foram amantes na ficção, adversários, marido e mulher, apaixonados, separados e eeconciliados.

E, quando as câmeras desligavam, continuavam juntos.

A parceria durou até 2021, quando Tarcísio morreu aos 85 anos.

Glória permaneceu longe das novelas nos anos seguintes, mas continuou recebendo homenagens por uma carreira que já havia ultrapassado seis décadas.

Em 2025, ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.

Era uma homenagem bastante apropriada, porque algumas estrelas são colocadas no chão; outras já estavam brilhando muito antes disso.

Um dia doloroso para a televisão brasileira

É difícil ignorar a coincidência.

Laura Cardoso morreu na noite de 17 de agosto, aos 98 anos. Horas depois, em 18 de agosto, veio a notícia da morte de Glória Menezes, aos 91.

Duas mulheres que atravessaram praticamente toda a história da televisão brasileira.

Laura estava entre os nomes que trabalharam quando a TV ainda dava seus primeiros passos.

Glória esteve na primeira novela diária do país e ajudou a consolidar a linguagem que transformaria a telenovela em um dos produtos culturais mais importantes do Brasil.

Não são apenas duas grandes atrizes que se foram; é como perder dois capítulos vivos da nossa própria televisão.

O último capítulo nunca apaga os anteriores

Enfim, Glória Menezes começou quando a televisão brasileira ainda estava descobrindo como contar histórias diariamente.

Quando terminou sua última novela, o público já assistia televisão pelo celular.

No meio desse caminho houve mais de seis décadas.

Do preto e branco à alta definição, ou de 2-5499 Ocupado a Totalmente Demais. De Rosa a Laurinha; heroína a vilã ou ainda de Cannes ao horário nobre.

E sempre Glória.

O nome artístico escolhido pela jovem Nilcedes acabou se tornando quase profético.

Porque personagens terminam, novelas acabam, as cortinas descem e até os maiores romances um dia encontram a despedida.

Mas algumas carreiras fazem jus ao nome e permanecem exatamente assim: na glória.

 

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