Benjamin Franklin Gates roubou a Declaração de Independência, sequestrou temporariamente o presidente dos Estados Unidos e encontrou cidades perdidas com uma facilidade que faria qualquer arqueólogo considerar outra profissão.

Mesmo assim, houve um tesouro que nem Nicolas Cage conseguiu localizar durante quase 19 anos: o terceiro filme.

Depois de décadas de promessas, roteiros, entrevistas otimistas e projetos que pareciam desaparecer sempre que alguém chegava perto demais, A Lenda do Tesouro Perdido 3 acaba de atingir seu estágio mais concreto em muito tempo.

Jon Turteltaub, diretor dos dois longas anteriores, afirmou publicamente que o novo capítulo “está acontecendo” e revelou que já existe um roteiro de que tanto ele quanto a Disney gostam.

A revelação aconteceu durante uma gravação ao vivo do podcast National Treasure Hunt, na Filadélfia, cidade praticamente obrigada por contrato moral a participar sempre que alguém resolve esconder pistas em monumentos históricos.

Contudo, antes de invadirmos os Arquivos Nacionais para procurar a data de estreia, existe uma ressalva importante. O próprio Turteltaub chamou o projeto de “Hollywood real”, expressão usada para lembrar que estar em desenvolvimento continua sendo muito diferente de ter câmera ligada, elenco contratado e ingresso à venda.

Ainda assim, depois de quase duas décadas procurando esse filme com uma lanterna, pelo menos agora encontramos uma porta.

Desta vez existe um roteiro que passou pelo primeiro enigma: agradar a Disney

A diferença entre esta atualização e tantas outras começa justamente no texto.
Em 2020, já havia sido divulgado que Chris Bremner, roteirista de Bad Boys para Sempre, trabalharia numa versão de National Treasure 3.

Posteriormente, novos nomes e novas versões entraram no longo processo de desenvolvimento. Em 2024, por exemplo, Jerry Bruckheimer ainda dizia que esperava receber um roteiro suficientemente bom para então levá-lo a Nicolas Cage.

Agora, segundo Turteltaub, essa etapa finalmente avançou. O cineasta afirmou que existe um roteiro que ele próprio aprova e que foi recebido positivamente pela Disney. Ao público da Filadélfia, explicou ainda que o estúdio considerou o material algo que poderia efetivamente virar filme.

Isso não equivale a um comunicado oficial de produção da Walt Disney Studios. Não foram anunciados orçamento, calendário ou início das filmagens. Porém, existe uma diferença enorme entre “alguém está escrevendo alguma coisa” e “temos um roteiro de que o diretor e o estúdio gostam”.

Depois de 19 anos, Benjamin Gates aparentemente encontrou a primeira pista que não levava a outro roteirista.

É real, só que real do jeito Hollywood de ser

Turteltaub também conseguiu evitar que a declaração fosse interpretada como uma garantia absoluta.

Ao confirmar que o projeto finalmente parecia real, acrescentou imediatamente o qualificativo “Hollywood real” e brincou que imprevistos ainda poderiam desmontar tudo. A mensagem por trás da piada era bastante simples: o longa avançou, porém ainda não chegou ao estágio em que possa ser considerado inevitável.

A cautela é especialmente compreensível neste caso. A Lenda do Tesouro Perdido 3 passou boa parte da vida em desenvolvimento antes mesmo de existir oficialmente o suficiente para ser chamado de atrasado.

Ao longo dos anos, produtores disseram que estavam trabalhando nele, roteiristas entregaram versões e integrantes do elenco manifestaram vontade de retornar.

Em 2022, porém, o próprio Nicolas Cage praticamente enterrou as expectativas ao afirmar numa conversa com fãs que a prioridade da Disney havia se tornado a série de televisão e que, por isso, não via grandes chances para o terceiro longa naquele momento.

Quatro anos depois, parece que alguém desenterrou o mapa.

E Nicolas Cage? Turteltaub quer Benjamin Gates de volta

Aqui existe uma pequena diferença entre aquilo que o diretor disse e aquilo que a Disney formalizou.

Turteltaub afirmou que pretende recuperar o máximo possível do elenco original e incluiu Nicolas Cage nessa perspectiva. Algumas manchetes internacionais chegaram a tratar o retorno do ator como confirmado, enquanto a Entertainment Weekly escreveu que Cage é esperado novamente como Benjamin Gates.

Entretanto, representantes da Disney e do próprio ator não haviam respondido aos pedidos de confirmação dos veículos no momento da publicação.

Portanto, a situação mais segura é esta: o projeto foi concebido para trazer Benjamin Gates e reunir a equipe original na medida do possível, mas ainda não houve anúncio contratual da Disney para Nicolas Cage.

O mesmo vale para Diane Kruger, Justin Bartha, Jon Voight e outros veteranos.
Existe intenção.

Falta começar a colocar assinaturas onde normalmente Benjamin Gates colocaria suco de limão para revelar tinta invisível.

Sem Nicolas Cage, porém, esse mapa ficaria muito estranho

Narrativamente, é difícil imaginar uma continuação cinematográfica direta sem Ben Gates.
O primeiro A Lenda do Tesouro Perdido, lançado em 2004, acompanhava o historiador e caçador de tesouros ao descobrir que havia um mapa escondido no verso da Declaração de Independência.

Como ninguém acreditava nele e criminosos pretendiam roubar o documento, Benjamin tomou a única decisão perfeitamente razoável disponível: roubou primeiro.

Ao lado de Riley Poole, interpretado por Justin Bartha, e Abigail Chase, vivida por Diane Kruger, Gates atravessou pistas relacionadas à história dos Estados Unidos até chegar ao tesouro escondido pelos maçons. Apesar da recepção crítica dividida, o longa arrecadou mais de US$ 347 milhões mundialmente.

Três anos depois, A Lenda do Tesouro Perdido: Livro dos Segredos ampliou a brincadeira.

Desta vez, Ben precisou limpar o nome da própria família, investigar o assassinato de Abraham Lincoln e acessar um livro presidencial secreto que convenientemente continha informações que o governo preferia não colocar no Google.

O resultado foi ainda maior: aproximadamente US$ 459 milhões em bilheteria mundial.

E então o filme cometeu seu maior crime.

Não, não foi sequestrar o presidente. Foi mostrar a página 47 e nunca dizer o que havia nela.

Página 47: 19 anos e ainda nada

No final de Livro dos Segredos, o presidente pede que Benjamin examine a página 47 do chamado Livro dos Segredos. Posteriormente, quando questionado sobre aquilo que encontrou, Gates responde apenas que a informação é capaz de mudar vidas.

Corta.

Créditos.

Até hoje.

A Entertainment Weekly lembra que o mistério permanece sem solução desde 2007, tornando a página uma das pendências mais persistentes da franquia.

Durante 19 anos, portanto, fãs transformaram aquelas duas palavras e um número numa fábrica de teorias.

Alienígenas? Roswell? Segredos presidenciais? Outra civilização perdida? Uma anotação dizendo “não esquecer de renovar a carteirinha da biblioteca”?

Ninguém sabe.

A série National Treasure: Edge of History chegou a brincar novamente com o assunto em 2022, quando Riley Poole reapareceu e sugeriu que ele e Ben continuavam trabalhando numa investigação relacionada ao número 47.

Entretanto, o programa foi cancelado pelo Disney+ depois de apenas uma temporada, sem entregar a grande resposta.

Nesse ritmo, talvez a própria página já esteja cobrando juros.

O terceiro filme passou mais tempo escondido que qualquer tesouro da franquia

A ironia é que National Treasure 3 nunca deixou completamente de existir.

Em janeiro de 2020, veio uma confirmação de que a Disney desenvolvia outro filme, com Chris Bremner trabalhando no roteiro e Jerry Bruckheimer retornando como produtor.

Naquele mesmo ano, Bruckheimer explicou que havia simultaneamente um projeto cinematográfico com o elenco original e uma série para o Disney+, esta última formada por personagens mais jovens.

A série acabou chegando primeiro.

National Treasure: Edge of History estreou no Disney+ em 2022, acompanhando Jess Valenzuela em outra caça ao tesouro dentro do mesmo universo. Harvey Keitel e Justin Bartha chegaram a retomar seus personagens dos filmes, porém Nicolas Cage nunca apareceu. Em abril de 2023, a plataforma cancelou a produção depois do primeiro ano.

Enquanto isso, o longa continuava vagando de entrevista em entrevista; Jerry Bruckheimer dizia que estava trabalhando nele; Turteltaub dizia que havia roteiro sendo escrito; Cage dizia que não existia e os fãs faziam aquilo que fãs de A Lenda do Tesouro Perdido fazem melhor: procuravam pistas.

O diretor também quer recuperar algo que Hollywood perdeu no caminho

Curiosamente, Turteltaub revelou que o desafio não está apenas em encontrar um tesouro bom o bastante.

Durante a conversa na Filadélfia, ele mencionou a polarização política dos Estados Unidos como um dos obstáculos criativos para desenvolver o terceiro filme. Segundo o diretor, tornou-se mais difícil contar uma aventura construída em torno da história e de símbolos nacionais sem que parte do público tente imediatamente enquadrá-la como declaração partidária.

Turteltaub disse acreditar que o novo roteiro não pode simplesmente ignorar essa realidade, mas precisa incorporá-la sem afastar espectadores de lados diferentes.

É um desafio curioso para uma franquia cuja ideia básica sempre foi extraordinariamente otimista sobre história.

Nos dois primeiros filmes, documentos, monumentos e acontecimentos do passado não eram apenas peças de museu. Funcionavam como um enorme quebra-cabeça coletivo, no qual conhecimento histórico era algo emocionante o suficiente para justificar perseguições, roubos e Nicolas Cage correndo pelas ruas.

Quase duas décadas depois, talvez o maior enigma seja descobrir se o público ainda consegue olhar para a mesma história sem começar uma briga nos comentários.

Philadelphia ouviu o segredo primeiro

O local da revelação também não poderia ser mais apropriado.

Turteltaub fez o anúncio durante o primeiro National Treasure Weekend, evento realizado na Filadélfia entre 20 e 22 de agosto para celebrar os filmes. A programação incluía exibições, passeios por locações e uma gravação ao vivo do podcast National Treasure Hunt.

Boa parte do longa de 2004 foi filmada justamente na cidade, utilizando pontos históricos como cenário para as pistas de Benjamin Gates.

Assim, revelar ali que o terceiro capítulo finalmente possuía um roteiro viável teve certa elegância.

Podia ter sido num comunicado corporativo, ou numa apresentação para investidores, ou num post com uma logo dourada.

Em vez disso, aconteceu diante de fãs reunidos na cidade onde Nicolas Cage aprendeu que monumentos históricos aparentemente possuem segurança muito menos eficiente do que imaginávamos.

Ainda não temos diretor confirmado. Nem sequer Turteltaub

Outro detalhe exige cuidado: Jon Turteltaub dirigiu os dois primeiros filmes e fala claramente como alguém profundamente envolvido na construção do terceiro. Entretanto, a Disney ainda não o anunciou oficialmente como diretor de National Treasure 3.

Da mesma forma, não há início de filmagens, calendário de produção ou data de estreia.
Isso ajuda a entender a expressão “Hollywood real”.

A peça central existe, o projeto avançou, o estúdio gosta do roteiro e existe intenção de reunir o elenco.

Por outro lado, ainda faltam algumas coisas relativamente pequenas, como contratos, cronograma, câmeras e um filme… Nada que Benjamin Gates não resolveria encontrando três símbolos escondidos num relógio da Casa Branca.

Será a história da página 47? Nem isso foi revelado

Também seria tentador afirmar que o terceiro longa finalmente resolverá o mistério deixado em 2007.

Seria lógico, desejável e quase uma obrigação moral. Mas Turteltaub não revelou a trama durante o evento e tampouco confirmou que a página 47 será o centro da história.

A existência da pista continua relevantíssima porque foi deliberadamente deixada aberta em Livro dos Segredos e depois recuperada pela série do Disney+. Contudo, até que alguém relacionado à produção explique o novo enredo, dizer “National Treasure 3 será sobre a página 47” continua sendo inferência.

Sabemos que a chave ainda está na fechadura; só não sabemos se o próximo filme pretende girá-la.

Hollywood finalmente encontrou o próprio tesouro perdido

É difícil encontrar franquia com título mais apropriado para o próprio histórico de produção.
Durante anos, A Lenda do Tesouro Perdido 3 existiu como seu próprio artefato desaparecido.

Todo mundo dizia que estava por aí, Jerry Bruckheimer tinha pistas, Jon Turteltaub aparecia ocasionalmente com um mapa, roteiristas afirmavam ter visto páginas e  Nicolas Cage já parecia convencido de que alguém havia enterrado tudo em propriedade da Disney e esquecido onde.

Agora, pela primeira vez em muito tempo, as peças parecem alinhadas o suficiente para o diretor olhar para uma plateia e dizer:
está acontecendo.

Ainda não significa que veremos Benjamin Gates amanhã, nem que Nicolas Cage já assinou, tampouco sabemos se a página 47 finalmente revelará aquilo que guarda desde 2007.

Entretanto, depois de quase 19 anos em que o maior mistério da franquia deixou de ser “onde está o tesouro?” e passou a ser “onde está o terceiro filme?”, existe finalmente uma resposta um pouco melhor.

O mapa saiu da gaveta; a Disney gostou do caminho e Benjamin Gates pode estar prestes a descobrir que sua missão mais difícil não era roubar a Declaração de Independência; era conseguir uma terceira aventura aprovada por Hollywood.

 

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