Durante 33 anos, parecia mais provável a fumaça sobre o Lago Genebra voltar para dentro do cassino do que Ritchie Blackmore subir novamente ao palco com o Deep Purple.
Pois aconteceu.
Em 12 de agosto, no Northwell at Jones Beach Theater, em Wantagh, Nova York, o guitarrista apareceu durante o encerramento do show e tocou “Smoke on the Water” ao lado de Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice e dos atuais integrantes da banda. Foi sua primeira apresentação com o Deep Purple desde 1993. A própria banda classificou o reencontro como “um grande momento na história do rock”.
No entanto, a parte mais importante talvez tenha vindo depois que os amplificadores foram desligados.
Em uma entrevista concedida após o show, Blackmore explicou que não entrou naquele palco para provar que ainda conseguia executar cada nota como fazia décadas atrás. Aos 81 anos, o músico queria algo bem mais simples, e talvez muito mais difícil depois de uma história marcada por conflitos:
rever velhos amigos.
E, segundo ele, havia a percepção de que aquela poderia ser a última oportunidade.
Não era sobre tocar perfeito
Blackmore admitiu que a apresentação teve seus tropeços. Sem tempo para aquecer antes de entrar no palco, chegou até a se perder em determinado momento durante a música.
Só que, desta vez, perfeição técnica não estava no topo da lista de prioridades.
Ao conversar com a Guitar Player, o guitarrista explicou que havia ido até lá para “curar quaisquer feridas”, embora tenha percebido que, na prática, aquelas feridas já não pareciam existir. O sentimento, segundo ele, era quase o de antigos companheiros de batalha voltando a se encontrar depois de muitos anos.
Talvez seja justamente por isso que alguns erros tenham se tornado praticamente irrelevantes.
Depois de três décadas em que qualquer pergunta sobre uma reunião frequentemente terminava em respostas desconfortáveis, ouvir o riff mais famoso da banda outra vez sob os dedos de Blackmore já era informação suficiente.
O restante podia ficar para a tablatura.
A ideia partiu do próprio Ritchie
Curiosamente, não houve meses de negociações secretas nem uma operação gigantesca envolvendo empresários.
Segundo Blackmore, a ideia surgiu na véspera do show.
O guitarrista contou que acordou pensando que seria bom para os fãs subir ao palco por uma música, especialmente para mostrar que ele e os antigos colegas não continuavam “na garganta um do outro”. Em seguida, entrou em contato com Ian Gillan e sugeriu participar de “Smoke on the Water”.
A resposta do vocalista foi simples: a ideia o fez sorrir.
Gillan consultou os demais integrantes e recebeu aprovação geral. Assim, poucas horas depois, um reencontro que parecia impossível durante décadas estava encaminhado.
Antes da apresentação, Blackmore ainda brincou que havia enviado uma “pomba com inteligência artificial” para falar com Gillan.
Porque aparentemente até reconciliações históricas precisam acompanhar as tendências tecnológicas.
Trinta e três anos de fumaça acumulada
Para entender o peso daquele abraço, porém, é preciso lembrar como a primeira parceria terminou.
Ritchie Blackmore foi um dos fundadores do Deep Purple em 1968 e ajudou a criar boa parte do repertório que transformou a banda em referência para o hard rock e o heavy metal. “Smoke on the Water”, “Highway Star” e “Space Truckin’” estão entre as composições ligadas diretamente à sua passagem.
Em 1975, ele deixou o grupo e fundou o Rainbow, inicialmente ao lado de Ronnie James Dio. Posteriormente, a formação clássica conhecida como Mark II, com Ian Gillan, Roger Glover, Jon Lord, Ian Paice e Blackmore, voltou a se reunir em 1984 para Perfect Strangers.
A segunda passagem duraria até 1993.
Dessa vez, entretanto, a saída foi bem menos elegante.
Gillan + Blackmore: dois galões de gasolina e um fósforo

As diferenças entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore já fazem parte do folclore do rock.
Ambos possuem personalidades fortes e, ao longo das décadas, falaram publicamente sobre os conflitos que atravessaram a convivência no Deep Purple. O próprio Gillan reconheceu anos depois que os dois haviam mudado e que a química humana da reunião dos anos 1980 já não era a mesma.
Em 1993, a situação chegou ao limite durante uma turnê europeia. Depois da apresentação em Helsinque, Blackmore deixou definitivamente a banda. Joe Satriani assumiu temporariamente a guitarra e, mais tarde, Steve Morse entrou para a formação, onde permaneceria por 28 anos. Desde 2022, Simon McBride ocupa oficialmente o posto.
Consequentemente, durante muito tempo uma volta de Ritchie parecia fora de cogitação.
Em 2022, por exemplo, Gillan chegou a dizer que trazer o antigo guitarrista de volta seria desrespeitoso com a formação que mantinha o Deep Purple vivo naquele momento.
Quatro anos depois, porém, ninguém estava falando em substituir ninguém.
Era apenas uma música.
E isso mudou tudo.
Smoke on the Water: não havia escolha melhor
Se o reencontro precisava acontecer em apenas uma faixa, dificilmente alguém escolheria outra.
“Smoke on the Water” nasceu durante as sessões de Machine Head, lançado em 1972. A letra registra o incêndio no cassino de Montreux, ocorrido depois que um sinalizador foi disparado durante um show de Frank Zappa. O acidente obrigou o Deep Purple a procurar outro lugar para gravar o álbum.
Depois veio aquele riff.
Quatro notas capazes de fazer milhões de adolescentes pegarem uma guitarra elétrica pela primeira vez e irritarem vendedores de instrumentos musicais ao redor do planeta.
O Rock & Roll Hall of Fame coloca a gravação entre as peças fundamentais da história da banda e observa que poucas sequências de acordes são tão imediatamente reconhecíveis.
Portanto, quando Blackmore entrou novamente no palco do Deep Purple, não precisava de discurso.
Bastaram as primeiras notas.
A fumaça fez o resto.
“Talvez seja a última vez que nos vejamos”
Entretanto, a entrevista posterior trouxe uma camada que nenhuma guitarra conseguiria explicar sozinha.
Aos 81 anos, Blackmore falou sobre o envelhecimento dos antigos companheiros e admitiu que, durante aquele encontro, surgiu a percepção de que poderia ser a última vez em que todos estariam juntos.
Não foi uma declaração de despedida oficial.
Tampouco significa que jamais haverá outra participação.
Porém, a possibilidade estava claramente presente na cabeça do guitarrista.
Além disso, o músico já não mantém uma rotina de hard rock comparável àquela dos anos 1970 ou 1980. Nas últimas décadas, sua principal atividade artística esteve ligada ao Blackmore’s Night, projeto que desenvolve com Candice Night e explora sonoridades folk e renascentistas.
Consequentemente, aquele “Smoke on the Water” não soou apenas como fan service.
Soou como alguém revisitando uma parte gigantesca da própria vida.
Não, Ritchie Blackmore não voltou para o Deep Purple
Depois de um reencontro assim, surge inevitavelmente a pergunta: ele voltou para a banda? Não.
Até o momento, não existe anúncio de retorno permanente, nova turnê conjunta ou reunião da formação clássica.
A apresentação de Wantagh foi uma participação especial de uma única música. O Deep Purple segue com sua formação atual, incluindo Simon McBride na guitarra.
Aliás, o calendário oficial da banda continua normalmente e inclui uma passagem pelo Brasil em 5 de dezembro de 2026, em São Paulo. Blackmore não foi anunciado para essa apresentação.
Portanto, antes que alguém compre ingresso esperando ver outro capítulo dessa reunião, vale deixar claro:
o reencontro aconteceu em Nova York e, por enquanto, ficou por lá.
Às vezes, uma música basta
O rock adora transformar brigas em mitologia.
Bandas terminam, integrantes trocam acusações, fãs escolhem lados e, algumas décadas depois, aquilo vira uma história repetida tantas vezes que parece impossível imaginar outro final.
Deep Purple e Ritchie Blackmore carregaram uma dessas histórias durante 33 anos.
Por isso, talvez o mais bonito do reencontro não tenha sido ouvir “Smoke on the Water” novamente.
Foi perceber que ninguém precisava vencer aquela velha discussão.
Blackmore não voltou para recuperar seu lugar; Simon McBride não precisou sair para que ele entrasse; Gillan não precisou esquecer o passado e Roger Glover e Ian Paice não precisaram fingir que três décadas não haviam acontecido.
Durante alguns minutos, eles simplesmente tocaram juntos.
A fumaça que acompanhava essa relação há tantos anos finalmente baixou o suficiente para que antigos companheiros conseguissem se enxergar outra vez.
Talvez aconteça novamente, ou como o próprio Ritchie teme, tenha sido a última vez.
Se foi, pelo menos o capítulo final não terminou com uma porta batendo.
Terminou com o riff que colocou todos eles na história do rock.
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