A cultura pop nunca tratou cérebros com muita discrição. Professor Xavier ganhou um dos mais poderosos da Marvel, os Borg transformaram incontáveis indivíduos em uma mente coletiva e Neon Genesis Evangelion fez da consciência matéria-prima para décadas de discussões.

Em Bob Esponja, por outro lado, Patrick Estrela praticamente virou a representação oficial do que acontece quando o departamento de raciocínio tira férias.

Bom, a natureza resolveu complicar essa história.

O Physarum polycephalum é uma criatura amarelada e gelatinosa pertencente aos mixomicetos. Em uma de suas fases, forma uma enorme célula multinucleada que cresce pelo ambiente em busca de alimento.

Não há cérebro comandando a operação, nem neurônios escondidos em algum canto. Ainda assim, seu comportamento é complexo o bastante para provocar uma pergunta incômoda entre pesquisadores: até onde podemos falar em aprendizagem, memória ou até cognição quando não existe sistema nervoso?

A gosma que resolveu um labirinto

O Physarum ganhou fama científica em 2000, quando pesquisadores colocaram partes do organismo em um labirinto com alimento em pontos específicos. Inicialmente, ele se espalhou por diversos caminhos; depois, abandonou trajetos menos vantajosos e manteve uma rota eficiente entre as fontes de comida.

Não significa que tenha olhado para o labirinto e pensado “elementar, meu caro Watson”. O comportamento surge de processos físicos e químicos distribuídos por todo o organismo. Ainda assim, o resultado chama atenção justamente porque não existe um centro de comando planejando a solução.

Anos depois, a experiência ficou ainda mais nerd. Pesquisadores distribuíram alimento em posições correspondentes a cidades da região de Tóquio. A rede construída pelo Physarum apresentou características comparáveis às do sistema ferroviário real em eficiência e custo.

Antes que alguém tenha ideias, não estamos sugerindo entregar o transporte público a uma gosma amarela… Ainda.

O mais curioso é que o organismo consegue também usar rastros deixados no ambiente para evitar regiões que já explorou. É quase como jogar um RPG sem minimapa, mas espalhar pelo cenário pequenas placas dizendo: “Você já esteve aqui.”

Parte daquilo que funciona como informação sobre o passado pode, portanto, permanecer fora do próprio organismo.

Para uma criatura sem cabeça, já é um currículo respeitável.

Hollywood já conhecia essa gosma

Se Physarum polycephalum parece uma criatura saída da ficção científica, a cultura pop já percebeu isso faz tempo. Em Life: Vida Inteligente, de 2017, o alienígena Calvin teve bolores limosos entre as referências biológicas usadas pela produção. A ideia fazia sentido: uma criatura sem anatomia convencional, capaz de mudar de forma, crescer e responder ao ambiente era matéria-prima perfeita para um monstro espacial. A diferença é que Hollywood, naturalmente, acrescentou a parte de matar astronautas.

A influência também apareceu em The Last of Us. Embora a infecção da franquia seja inspirada em fungos parasitas do gênero Ophiocordyceps, os padrões orgânicos vistos na abertura da série da HBO e parte da estética de crescimento foram associados ao Physarum polycephalum. É aquela velha tradição da cultura geek: encontra uma estrutura biológica fascinante, aumenta o tamanho, adiciona horror corporal e torce para ninguém perguntar pela biossegurança.

Muito antes disso, criaturas amorfas já assombravam o cinema em The Blob, clássico de 1958 sobre uma massa alienígena que cresce enquanto devora suas vítimas. Há autores que apontam bolores limosos como possíveis parentes visuais dessa ideia, e a associação acabou ficando tão forte que o próprio Physarum passou a ser chamado informalmente de “blob” em algumas divulgações científicas.

E, como toda criatura que se preze eventualmente precisa ganhar um videogame, existe até PHYSARUM: Slime Mold Simulator, no qual o jogador acompanha milhões de agentes virtuais formando aquelas redes hipnóticas inspiradas no organismo real. Nada de chefão final ou barra de HP. Aqui, a gosma é a protagonista.

Dory ficaria com inveja

O Physarum também apresenta algo semelhante à habituação, uma das formas mais simples de aprendizagem. Quando exposto repetidamente a determinadas substâncias desagradáveis, mas inofensivas, ele pode reduzir gradualmente sua resistência a atravessá-las.

Em experimentos, pesquisadores chegaram a colocar o organismo em estado dormente e reativá-lo posteriormente. O comportamento adquirido anteriormente ainda podia ser observado depois, e estudos sugeriram que mecanismos químicos ajudavam a preservar essa informação.

Nada de hipocampo, nem de sinapses.

Química, fluxo e uma rede de tubos fazendo o trabalho.

É tentador olhar para tudo isso e declarar que encontramos uma gosma inteligente, mas aí entra a parte em que a ciência tira nosso meme da mão.

Não há consenso de que palavras como “pensamento” ou “inteligência” sejam adequadas. Alguns pesquisadores consideram útil estudar esses comportamentos como formas elementares de cognição; outros alertam que esse vocabulário pode antropomorfizar mecanismos biológicos que não têm nada parecido com uma mente.

E talvez essa discussão seja ainda mais interessante que o próprio organismo.

Afinal, precisa de cérebro para ser inteligente?

Quando falamos em inteligência, costumamos colocar várias habilidades dentro da mesma caixa: aprender, lembrar, resolver problemas, planejar, criar e ter consciência de si. Porém, essas capacidades não precisam necessariamente aparecer juntas.

O Physarum não precisa saber que existe para encontrar uma rota eficiente até o alimento, assim como não precisa filosofar sobre o passado para alterar seu comportamento com base no que aconteceu antes.

Nesse sentido, ele lembra uma das melhores tradições de Star Trek: encontrar formas de vida que não obedecem às expectativas humanas. Em “The Devil in the Dark”, a Horta inicialmente parece apenas uma criatura perigosa. Só depois os personagens percebem que estão diante de uma forma de vida inteligente completamente diferente deles.

O Physarum não é consciente até onde sabemos, tampouco está prestes a conversar com Spock. Porém, ele coloca uma pulga, ou talvez uma gosma, atrás da nossa orelha: quantas características consideramos obrigatórias para a inteligência simplesmente porque elas existem em nós?

Talvez o primeiro alienígena nem tenha cabeça

E é aqui que a brincadeira fica verdadeiramente Ciência Geek.

Imagine que uma missão encontre vida sob o gelo de Europa, lua de Júpiter. O organismo não possui cérebro, olhos ou boca. Não constrói naves, não transmite números primos e certamente não pede para ser levado ao nosso líder.

Mesmo assim, modifica seu comportamento conforme experiências anteriores, encontra soluções eficientes para conseguir nutrientes e preserva informações químicas sobre o ambiente.

Encontramos inteligência? Encontramos apenas uma forma extraordinariamente sofisticada de vida? Ou descobrimos alguma coisa para a qual nossas definições ainda não servem?

O Physarum polycephalum não prova que seres sem cérebro sejam conscientes, muito menos que alienígenas funcionarão dessa maneira. O que ele mostra é algo talvez mais interessante: a natureza consegue produzir comportamentos complexos sem utilizar o projeto que nós associamos imediatamente ao pensamento.

Pois é… A ficção científica passou décadas procurando cérebros gigantes, computadores conscientes e espécies telepáticas nas estrelas. Enquanto isso, uma criatura amarela sem um único neurônio estava aqui na Terra resolvendo problemas e colocando cientistas para discutir o significado da palavra “inteligência”.

Talvez o primeiro contato realmente comece com uma nave pousando diante da humanidade.

Ou talvez comece com um pesquisador olhando para uma placa de Petri e dizendo: “Espera… isso está fazendo o quê?”

E, se uma gosma sem cérebro consegue aprender com experiências anteriores…Patrick  Estrela ainda tem alguma chance.

 

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