Nesta noite passada de quinta para sexta-feira, milhões de pessoas olharam para o céu por causa do eclipse lunar. Por algumas horas, a sombra da Terra tomou conta de boa parte da Lua e transformou nossa velha vizinha cósmica na protagonista da noite.

Bonito. Fotogênico. Inofensivo. Sim, um show à parte.

Contudo, a cultura geek nunca teve tanta delicadeza com ela.

Afinal, Gru decidiu que roubar um banco era coisa de vilão sem ambição e partiu logo para roubar a Lua inteira em Meu Malvado Favorito.

Já em Dragon Ball, destruir o satélite virou uma solução surpreendentemente prática para problemas envolvendo Saiyajins e macacos gigantes.

Em The Legend of Zelda: Majora’s Mask, a Lua resolve abandonar discretamente sua órbita para cair sobre Termina.

Até Doctor Who já colocou seus personagens diante da possibilidade de destruí-la.

A ficção, portanto, já roubou, explodiu, derrubou e ameaçou nossa Lua de tantas maneiras que ela provavelmente deveria pedir uma medida protetiva contra roteiristas.

Só existe um pequeno problema: se alguém realmente desse cabo dela, a Terra perceberia. E muito.

Antes de destruir a Lua, uma pequena questão: como?

Na física conhecida, entretanto, não existe mecanismo capaz de simplesmente encolher um objeto como faz o Raio Encolhedor de Gru. Aliás, antes mesmo de discutir o tamanho da Lua, surge uma pergunta que Meu Malvado Favorito sabiamente deixa para os físicos estragarem a diversão: o raio diminuiria apenas o tamanho ou também a massa?

Se toda a massa da Lua fosse preservada enquanto ela encolhesse, sua densidade aumentaria absurdamente. Quanto menor o raio, mais intensa seria a gravidade em sua nova superfície.

E existe um limite para essa brincadeira: comprimidos os cerca de 7,35×10227,35\times10^{22} kg da Lua dentro de um raio de aproximadamente 0,11 milímetro, entraríamos no território dos buracos negros. Nesse ponto, nem Gru, nem Dr. Nefario e muito menos um batalhão de Minions conseguiria simplesmente colocar a Lua no bolso.

Por outro lado, se o Raio Encolhedor também reduzisse proporcionalmente a massa, escaparíamos desse problema, mas criaríamos outro: uma Lua muito menos massiva exerceria uma atração gravitacional muito menor sobre a Terra.

Ou seja, para que o plano de Gru funcionasse exatamente como no filme, seu aparelho precisaria fazer algo ainda mais absurdo do que encolher matéria: teria de alterar massa e tamanho de maneira extremamente conveniente para o roteiro.

Destruir a Lua também seria um empreendimento de escala quase inimaginável. Não bastaria uma bela explosão hollywoodiana: seria necessário fornecer energia suficiente para vencer a atração gravitacional que mantém o satélite unido.

Caso os fragmentos permanecessem próximos e sem velocidade suficiente para escapar uns dos outros, a própria gravidade poderia transformar o grande “KABOOM” em uma história de reconciliação cósmica, fazendo parte daquele material voltar a se agregar.

Piccolo explodiu a Lua. A Terra aparentemente tinha outros compromissos

Fãs de Dragon Ball conhecem bem a relação problemática de Akira Toriyama com nosso satélite.

Ainda na série clássica, Mestre Kame destrói a Lua durante o 21º Torneio de Artes Marciais para interromper a transformação de Goku em Oozaru.

Mais tarde, em Dragon Ball Z, Piccolo repete a terapia lunar explosiva quando Gohan se transforma após olhar para a Lua cheia.

Funciona maravilhosamente para resolver o problema imediato.

Para a astronomia, abre uns cinquenta outros.

Porque a Lua não é simplesmente aquela luminária branca que aparece no céu para melhorar fotografias românticas. A interação gravitacional entre Terra e Lua participa de vários processos do nosso planeta, entre eles as marés. A NASA explica que a atração lunar redistribui a água dos oceanos, produzindo os conhecidos ciclos de maré alta e baixa.

E aqui chegamos à primeira vítima da Técnica Especial Canhão Lunar de Piccolo: o litoral.

Adeus, Lua: as marés não desapareceriam, mas levariam um nerf gigantesco

É comum ouvir que, sem a Lua, “não existiriam mais marés”.

Não é exatamente assim.

Afinal, o Sol também exerce influência gravitacional sobre os oceanos. Por isso, mesmo sem a Lua, a Terra ainda teria marés. O que desapareceria seria a contribuição lunar, hoje fundamental para o padrão que conhecemos. A combinação entre as atrações do Sol e da Lua é justamente o que produz as variações entre marés de sizígia, mais intensas, e marés de quadratura, mais moderadas.

Ou seja, não seria: Lua explode → oceanos ficam imóveis.

Seria algo muito mais complicado: todo um sistema costeiro acostumado durante eras geológicas a determinados ciclos teria suas condições alteradas.

E isso não seria apenas um inconveniente para quem marcou praia no fim de semana.

Aquaman provavelmente seria um dos primeiros a reclamar

As zonas entre marés estão entre os ambientes mais diretamente associados aos ciclos lunares. Entretanto, a influência da Lua sobre a vida vai além do movimento da água.

Há animais que usam ciclos lunares ou a luminosidade noturna como sinais para alimentação, reprodução, deslocamento e comportamento. Uma revisão publicada pela Royal Society destaca efeitos da luz lunar sobre atividade, risco de predação e uso de habitat em animais terrestres, além da sincronização reprodutiva em espécies marinhas.

Um dos exemplos mais espetaculares acontece nos recifes de coral.

Em determinados locais, ciclos ambientais relacionados à Lua ajudam a sincronizar eventos reprodutivos em massa. Estudos também mostram que a luminosidade lunar influencia relações entre predadores e presas e diferentes comportamentos nos ecossistemas de recifes.

Então imagine retirar subitamente do planeta um sinal ambiental ao qual inúmeras espécies responderam durante milhões de anos.

Não significa que toda vida marinha morreria na terça-feira seguinte.

Significa que estaríamos alterando de uma vez um dos relógios ambientais mais antigos da Terra.

Talvez Sebastian, de A Pequena Sereia, tivesse motivos bastante concretos para cantar “Aqui no Mar” em tom de protesto.

E as noites? Batman agradeceria. O resto do ecossistema, talvez não

Sem Lua, naturalmente, perderíamos também o luar.

Parece pouco diante de oceanos e gravidade, mas tente explicar isso para animais que organizam parte de seu comportamento de acordo com a iluminação noturna.

Pesquisas mostram que a quantidade de luz lunar pode alterar atividade e risco de predação em mamíferos noturnos. Dependendo da espécie, do habitat e do sistema sensorial utilizado, noites mais claras podem significar melhores condições para enxergar ou maiores chances de ser enxergado.

Em outras palavras, a Lua participa de uma espécie de gigantesco jogo de stealth ecológico.

Predadores ganham vantagens em certas condições. Presas mudam seus horários. Animais escolhem quando sair dos esconderijos.

Retire permanentemente a iluminação lunar e você altera as regras dessa partida.

Já os morcegos reais teriam uma conversa um pouco mais complicada com os ecólogos.

Mas a verdadeira bomba-relógio estaria no eixo da Terra

Até aqui, nosso apocalipse lunar parece administrável. Marés diferentes, noites escuras, ecossistemas precisando se adaptar.

Então aparece o verdadeiro chefão da fase: o eixo terrestre.

A Terra gira inclinada cerca de 23,5 graus em relação ao plano de sua órbita, e essa inclinação está relacionada às estações do ano. A presença da Lua ajuda a limitar as variações da orientação desse eixo ao longo de grandes escalas de tempo.

A própria NASA destaca que a gravidade lunar contribui para estabilizar a rotação terrestre e que, sem nosso satélite, o eixo poderia apresentar variações maiores, com consequências climáticas em escalas muito longas.

Aqui é importante não transformar ciência em trailer de Roland Emmerich.

A Lua desaparecer hoje não faria o eixo da Terra enlouquecer amanhã de manhã.

Nada de acordar no sábado e descobrir que Campinas virou Antártida enquanto pinguins disputam espaço no quintal.

Essas alterações orbitais e climáticas relevantes ocorreriam em escalas enormes. Porém, pensando na história futura do planeta, perder um corpo que participa da estabilidade de sua orientação seria uma mudança fundamental no sistema Terra-Lua.

Piccolo salvou Gohan.

Os climatologistas do futuro talvez quisessem algumas palavras com ele.

E o nosso dia? A Lua também está pisando no freio da Terra

Existe ainda uma história acontecendo tão lentamente que ninguém percebe.

A Terra e a Lua estão trocando energia por meio das interações de maré. Ao longo de bilhões de anos, esse processo contribuiu para desacelerar a rotação terrestre enquanto a Lua se afastava gradualmente.

Hoje, medições mostram que ela continua se afastando cerca de 3,8 centímetros por ano. A NASA explica que, no passado remoto, nosso planeta girava muito mais rapidamente e a Lua estava consideravelmente mais próxima.

Portanto, eliminar a Lua também significaria interromper uma interação que participa da evolução da rotação do nosso planeta.

Mais uma vez, ninguém perderia o horário do trabalho porque terça-feira passou subitamente a ter 17 horas.

Mas, em escalas geológicas, teríamos colocado o sistema Terra-Lua em uma linha temporal completamente diferente.

Basicamente, Piccolo não destruiu apenas uma esfera no céu.

Ele apertou “criar nova timeline”.

E nem precisou das Esferas do Dragão.

Majora’s Mask teve uma ideia ainda pior: jogar a Lua na nossa cabeça

Se destruir a Lua já seria problemático, The Legend of Zelda: Majora’s Mask resolveu perguntar:

“E se, em vez disso, ela simplesmente caísse?”

Em Termina, Link dispõe de três dias para impedir que uma Lua com uma das expressões faciais mais perturbadoras da história dos videogames atinja o mundo. A própria Nintendo resume o cenário sem rodeios: depois de três dias, a Lua cai e Termina é destruída.

Nesse caso, a ciência não precisa nem consultar Navi para dar o diagnóstico: seria catastrófico.

Um objeto com a massa da Lua colidindo com a Terra envolveria uma quantidade de energia tão colossal que “desastre” seria uma palavra educada demais.

Não estaríamos discutindo tsunami, cidade destruída ou extinção regional. Estaríamos falando de uma transformação planetária extrema.

Curiosamente, há uma ironia cósmica nisso.

A hipótese dominante para a origem da própria Lua envolve justamente uma colisão gigantesca ocorrida há cerca de 4,5 bilhões de anos. Segundo o cenário do grande impacto, um corpo planetário, frequentemente chamado de Theia, colidiu com a jovem Terra; parte do material lançado ao espaço acabou contribuindo para a formação da Lua.

Ou seja: Majora’s Mask estaria basicamente tentando devolver o produto ao remetente… Depois de 4,5 bilhões de anos; sem nota fiscal.

Doctor Who conseguiu deixar tudo ainda mais estranho

Quando você pensa que ninguém poderia inventar um problema lunar mais absurdo, aparece Doctor Who.

No episódio “Kill the Moon”, o Décimo Segundo Doutor e Clara chegam a uma Lua que está passando por acontecimentos bastante inconvenientes. Existe uma missão envolvendo armas nucleares e a possibilidade de destruir o satélite.

Então vem o plot twist: a Lua seria, na verdade, um gigantesco ovo.

Sim. Um ovo…  Com uma criatura dentro.

A BBC realmente colocou Peter Capaldi diante da frase “Kill the Moon” e decidiu que a astronomia tradicional estava fácil demais.

Do ponto de vista científico, podemos arquivar a hipótese “Lua = Kinder Ovo espacial” na mesma gaveta do Raio Encolhedor de Gru. Nossa Lua é um corpo rochoso diferenciado, estudado por observações orbitais, experimentos sísmicos e pelas próprias amostras trazidas pelas missões Apollo. A evidência científica sobre sua origem aponta para processos planetários primitivos, não para uma maternidade cósmica prestes a entrar em trabalho de parto.

Ainda assim, Doctor Who acerta numa coisa importante para nossa brincadeira: mexer na Lua significa mexer na Terra.

E isso nos leva de volta ao nosso supervilão favorito.

Então… Gru realmente poderia roubar a Lua?

Vamos imaginar que Dr. Nefario ignore todas as leis conhecidas da física e finalmente aperfeiçoe o Raio Encolhedor.

Gru aponta: ZAP.

A Lua fica do tamanho de uma bola; ele pega; os Minions comemoram; Agnes provavelmente pergunta se pode ficar com ela e a ciência entra em colapso nervoso.

Porque existe uma pergunta que o filme convenientemente não precisa responder: encolher a Lua também reduziria sua massa?

Se ela simplesmente diminuísse de tamanho mantendo toda a massa original, teríamos um objeto absurdamente denso nas mãos de Gru, e o problema deixaria de ser “roubar a Lua” para virar “por que existe um corpo de 7,35 × 10²² kg dentro da minha casa?”.

Se o raio também reduzisse a massa proporcionalmente, então sua influência gravitacional sobre a Terra despencaria. Para o nosso planeta, seria funcionalmente semelhante a perder grande parte da Lua.

De um jeito ou de outro, Dr. Nefario teria trabalho… Muito trabalho.

É… Talvez fosse melhor voltar a roubar pirâmides.

Calma: destruir a Lua não significa necessariamente que todos os pedaços cairiam na Terra

Aqui entra um detalhe importante porque Hollywood adora transformar qualquer explosão espacial em chuva de meteoros.

Se a Lua simplesmente fosse fragmentada, o destino dos pedaços dependeria da energia, velocidade e direção adquiridas por cada fragmento.

Alguns poderiam permanecer em órbita terrestre. Outros poderiam escapar. Fragmentos poderiam colidir entre si. Dependendo das condições iniciais, parte do material poderia eventualmente voltar a se agregar pela própria gravidade.

E, sim, alguns fragmentos poderiam acabar encontrando a Terra.

Portanto, “explodir a Lua” não cria automaticamente uma cena em que todos os pedaços apontam simultaneamente para Nova York, Tóquio e a Torre Eiffel porque o departamento de efeitos visuais precisa mostrar pontos turísticos sendo destruídos.

A mecânica orbital é menos patriótica… E muito mais complicada.

Mas espere: sem Lua, ainda teríamos eclipses?

Agora chegamos justamente ao fenômeno que colocou nosso satélite nos holofotes nesta semana.

Sem Lua, eclipses lunares acabariam por motivos bastante óbvios.

Não dá para a sombra da Terra cobrir um satélite que Piccolo mandou para o além.

Mas também perderíamos os eclipses solares provocados pela Lua.

E aqui existe uma coincidência astronômica maravilhosa: vistos da Terra, Sol e Lua possuem tamanhos aparentes semelhantes porque o Sol é imensamente maior, mas também está imensamente mais distante. Essa geometria permite que a Lua cubra o disco solar durante um eclipse total.

Sem ela, acabou o espetáculo: nada de totalidade.

Nada de coroa solar aparecendo em pleno dia por causa da ocultação lunar.

Nada de milhões de pessoas comprando óculos especiais e descobrindo, 48 horas antes, que todos os lugares esgotaram.

Piccolo também teria acabado com um dos maiores eventos astronômicos acessíveis a olho nu.

Parabéns, Namekuseijin.

Afinal, a humanidade sobreviveria sem a Lua?

Provavelmente essa é a maior surpresa da história: o desaparecimento mágico e instantâneo da Lua não significaria necessariamente a extinção imediata da humanidade.

A Terra não sairia voando pelo Sistema Solar. O Sol continuaria dominando nossa órbita. A atmosfera não seria sugada para o espaço. A gravidade terrestre não desapareceria. E nossos oceanos não saltariam para fora do planeta.

Nada de tela preta e “GAME OVER” cinco segundos depois.

Entretanto, chamar isso de “ficar tudo bem” seria como dizer que a Estrela da Morte fez apenas uma pequena reforma urbana em Alderaan.

Os padrões de maré seriam profundamente alterados. Ecossistemas que utilizam ciclos lunares e iluminação noturna enfrentariam novas condições. Perderíamos o luar e os eclipses produzidos pela Lua. Em escalas muito longas, a dinâmica de rotação e a estabilidade da orientação do eixo terrestre seguiriam uma história diferente daquela construída com nosso satélite ao lado.

A Lua pode parecer apenas uma coadjuvante no céu.

Do ponto de vista da Terra, ela está no elenco principal há bilhões de anos.

Talvez seja melhor deixar a Lua onde está

A cultura pop já transformou nosso satélite em arma, alvo, ovo, objeto roubável e chefão final.

Gru colocou a Lua no bolso; Mestre Kame e Piccolo resolveram problemas explodindo-a; Skull Kid decidiu jogá-la sobre Termina; Doctor Who perguntou se deveríamos matá-la…

E nós?

Talvez seja melhor simplesmente continuar olhando.

Porque a Lua não serve apenas para iluminar noites, inspirar músicas, criar lobisomens cinematográficos ou fornecer o cenário perfeito para E.T. atravessar o céu de bicicleta. Sua gravidade está ligada às marés, sua luz participa de ritmos ecológicos e sua presença acompanha a evolução física da Terra há aproximadamente 4,5 bilhões de anos.

O eclipse desta semana nos lembrou disso de uma maneira bonita: por algumas horas, vimos a Lua escurecer e depois reaparecer.

Ainda bem.

Porque, se algum dia ela desaparecer e não voltar, provavelmente teremos problemas bem maiores do que uma foto ruim do céu.

E, caso alguém veja um sujeito careca, de cachecol listrado e acompanhado por centenas de criaturas amarelas apontando um aparelho para cima… por favor, chamem a NASA. E escondam o Raio Encolhedor.

 

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