Night City não acredita muito em finais felizes. No máximo, ela permite alguns episódios de esperança antes de apresentar a conta.
Quatro anos depois de Cyberpunk: Edgerunners transformar David, Lucy, Rebecca e companhia em material permanente para terapia coletiva, a cidade mais agradável do futuro já marcou a próxima sessão: Cyberpunk: Edgerunners 2 estreia mundialmente na Netflix em 20 de outubro de 2026.
A data foi revelada durante o Anime NYC e veio acompanhada de um novo trailer, que apresenta parte da equipe destinada a descobrir, provavelmente da pior maneira possível, que sobreviver em Night City continua sendo um privilégio estatisticamente improvável.
Desta vez, porém, não adianta procurar David Martinez no meio da multidão. A história dele terminou, enquanto outros nomes passam a ocupar o centro do palco. E, conhecendo Cyberpunk, é melhor não se apegar rápido demais.
Nova equipe, mesmo inferno
A própria Netflix resumiu a proposta com uma frase bastante eficiente: “New crew. Same hell.”, ou seja, nova equipe, mesmo inferno. Embora carregue o número 2, a produção não funcionará como uma continuação convencional da primeira série.
CD Projekt Red e Studio Trigger optaram por contar uma nova história independente dentro do universo de Cyberpunk 2077, novamente estruturada em dez episódios.
Com isso, David Martinez não retorna como protagonista, tampouco acompanharemos simplesmente os sobreviventes do primeiro anime.
A estratégia aproxima Edgerunners de uma espécie de antologia ambientada em Night City, na qual mudam os personagens e os dramas, mas permanece a mesma cidade perfeitamente preparada para triturar sonhos.
Weak já foi rei. Agora nem cromo ele tem

Entre os novos personagens está Weak, um veterano mercenário que já foi conhecido como “King”.
No passado, ele esteve entre os melhores edgerunners, porém agora vive à sombra daquela antiga reputação e precisa sobreviver sem implantes cibernéticos, enquanto procura algum propósito num mundo que aparentemente continuou avançando sem esperar por ele. Na versão japonesa, Weak terá voz de Kentaro Tone.
A premissa cria um contraste interessante com David. Enquanto o protagonista original entrou progressivamente numa corrida por mais cromo, mais poder e maior capacidade física, Weak começa sua história praticamente do outro lado dessa equação.
Ele conheceu o topo, perdeu aquilo que o ajudava a permanecer lá e agora terá de descobrir quem é sem a máquina. Naturalmente, Night City, famosa por seu excelente programa de apoio psicológico a veteranos, deverá facilitar bastante esse processo.
D quer vingança. Night City adora esse tipo de currículo

Do outro lado da história aparece simplesmente D, integrante da Nação Cobra e netrunner habilidosa cuja motivação é consideravelmente menos filosófica: vingança.
Seu objetivo é encontrar o responsável pelo massacre de seu clã, porém, durante essa busca, ela acaba se aproximando de segredos corporativos que jamais deveriam ter sido descobertos. Na versão japonesa, a personagem será dublada por Koki Uchiyama.
Naturalmente, mexer em informações que corporações desejam esconder costuma ser uma excelente maneira de garantir longevidade em Night City. Basta perguntar a praticamente qualquer personagem da franquia, caso seja possível encontrar algum ainda vivo.
Roman ainda acredita que histórias precisam ser contadas

Outro nome revelado é Roman Carax, jovem apaixonado por cinema em uma sociedade que praticamente abandonou a linguagem tradicional dos filmes em favor das braindances, conhecidas em português como neurodanças.
Obcecado em registrar histórias verdadeiras, Roman passa a acompanhar a vida das pessoas ao redor e, com isso, descobre algo que provavelmente não surpreenderá ninguém familiarizado com aquele universo: ao contrário dos filmes que admira, as histórias de Night City raramente terminam de forma limpa. A voz japonesa será de Momoka Terasawa.
Sua presença também ajuda a explicar uma das ideias centrais anunciadas para o novo anime. Além de vingança, família, obsessão e legado, Edgerunners 2 pretende discutir a maneira como histórias são observadas e transformadas em espetáculo.
Nesse contexto, surge uma pergunta bastante cyberpunk: quando todo mundo está assistindo, quanto sofrimento é necessário para que alguém finalmente preste atenção?
Talia saiu das torres corporativas e caiu na Maelstrom

Completando o primeiro grupo apresentado está Talia, personagem que cresceu entre as torres das corporações, mas acabou moldada pelo contato com a Maelstrom, uma das gangues mais violentas e obcecadas por modificações corporais de Night City.
A descrição oficial a apresenta como ferozmente independente e profundamente inserida naquela cultura de hiperviolência e cromo. Na versão japonesa, Akari Kito ficará responsável pela voz.
Assim, já existe um contraste interessante dentro da equipe. Weak perdeu seus implantes, Talia vem de um ambiente em que transformar o próprio corpo em máquina praticamente faz parte da identidade, D busca vingança e Roman quer registrar histórias.
Em qualquer outro lugar, talvez essa combinação pudesse funcionar. Em Night City, a pergunta é outra: quanto tempo levará até tudo dar errado?
A vingança será só parte do problema
Quando Edgerunners 2 foi anunciado, em 2025, a CD Projekt Red já havia definido a nova produção como uma história sobre redenção e vingança.
Agora, contudo, a sinopse oficial amplia essa ideia ao incluir família, obsessão e legado, enquanto os caminhos dos protagonistas começam a se cruzar.
Além disso, existe um componente ligado à transformação da violência em espetáculo. Segundo a descrição divulgada pela produção, Night City prospera sob os holofotes da brutalidade, e a série pretende discutir até onde alguém precisa ir para conseguir tornar sua própria história relevante num mundo anestesiado pelo excesso de imagens.
Nesse sentido, Roman provavelmente não está segurando uma câmera por acaso. O primeiro Edgerunners examinava sonhos esmagados pela cidade; o segundo parece interessado também em perguntar quem está olhando enquanto isso acontece.
Leve, confortável e perfeito para assistir antes de dormir.
Trigger continua com a chave de Night City
Embora os personagens tenham mudado, a parceria principal permanece intacta. A CD Projekt Red volta a produzir a série ao lado do Studio Trigger, responsável pela animação do primeiro Edgerunners. Entretanto, existe uma mudança importante no comando criativo: desta vez, a direção será de Kai Ikarashi, que já havia trabalhado na primeira série e também possui SSSS.Gridman em seu currículo.
O design principal de personagens fica com Kanno Ichigo, ligado a trabalhos como Promare e o próprio Edgerunners. Enquanto isso, Bartosz Sztybor retorna como showrunner, roteirista da história e produtor, e Masahiko Otsuka, veterano do primeiro projeto e de produções como Gurren Lagann e Promare, também permanece envolvido.
A Netflix ainda destaca que a nova temporada apresentará uma abordagem visual repensada, embora preserve a identidade construída pela colaboração entre a desenvolvedora polonesa e o estúdio japonês. Night City, portanto, pode até receber pintura nova, mas o índice de mortalidade aparentemente continua o mesmo.
Por que não simplesmente continuar a história de David?

Porque a produção não demonstra qualquer intenção de desfazer o peso do primeiro anime. Quando anunciou Edgerunners 2, a própria CD Projekt Red foi direta ao afirmar que David está morto, enquanto Night City continua viva.
Essa frase resume bem a filosofia da nova fase. O universo funciona como protagonista maior, enquanto David foi apenas uma das pessoas que tentaram conquistar algum espaço dentro dele. Agora veremos outras.
A decisão também evita um problema comum em continuações construídas depois de um grande sucesso: desmontar um final marcante simplesmente porque seus personagens se tornaram populares demais para permanecerem onde a história os deixou.
Em vez disso, Edgerunners 2 preserva a trajetória anterior e aposta na própria cidade como elo entre as produções. Talvez seja melhor assim. Night City possui moradores suficientes para traumatizar.
O primeiro Edgerunners deixou uma barra muito alta

A responsabilidade, contudo, não será pequena. Lançado em setembro de 2022, Cyberpunk: Edgerunners apresentou David Martinez, jovem de Santo Domingo que entra para o submundo dos mercenários depois de uma perda pessoal e passa a modificar progressivamente o próprio corpo para sobreviver. Ao redor dele estavam personagens que rapidamente conquistaram o público, como Lucy, Rebecca, Maine e Kiwi.
A recepção foi extremamente positiva. No Crunchyroll Anime Awards de 2023, a produção venceu como Anime do Ano, superando títulos como Attack on Titan Final Season Part 2, Demon Slayer, Spy x Family, Lycoris Recoil e Ranking of Kings. Além disso, Zach Aguilar, voz inglesa de David, levou o prêmio de melhor atuação em inglês.
Nada mal para uma adaptação ligada a um jogo que, dois anos antes, havia se tornado praticamente sinônimo de lançamento problemático.
Cyberpunk descobriu que anime também pode salvar reputações
Quando Edgerunners chegou à Netflix, Cyberpunk 2077 já havia passado por uma longa sequência de atualizações após a estreia turbulenta de 2020. Ainda assim, o anime ajudou a reacender o interesse naquele universo e apresentou Night City a uma parcela do público que talvez jamais tivesse jogado o game.
A conexão funcionava justamente porque a produção não tentava recontar o jogo. A cidade era a mesma, assim como as corporações, armas, implantes, gangues e regiões, porém David possuía uma história completamente própria. Essa fórmula agora parece ter se transformado em modelo.
Por isso, Edgerunners 2 não precisa substituir David. Precisa demonstrar que Night City consegue produzir outro desastre humano tão memorável quanto o primeiro. Nada de muita pressão.
E Lucy, Rebecca e os outros?

Aqui vale colocar o freio antes que a nostalgia acelere demais. Até agora, a divulgação oficial fala em novo grupo de personagens e história independente, sem anunciar Lucy ou outros nomes ligados à primeira série como participantes relevantes do novo arco.
Naturalmente, isso não torna referências ou aparições impossíveis, pois Night City continua sendo a mesma e o universo compartilhado permite conexões. No entanto, possibilidade e confirmação são coisas diferentes. Portanto, por enquanto, ninguém deve assistir ao trailer procurando secretamente Lucy em cada reflexo de neon.
Quanto a Rebecca… Talvez seja melhor não mexer nessa ferida.
A Netflix marcou a estreia mundial
Desta vez, pelo menos, não haverá necessidade de esperar confirmação regional. A Netflix anuncia Cyberpunk: Edgerunners 2 para 20 de outubro, enquanto o site oficial da franquia apresenta a mesma data de chegada à plataforma.
A versão brasileira da página da CD Projekt Red também lista o projeto, utilizando o título localizado Cyberpunk: Mercenários 2.
Dessa forma, trata-se de um lançamento global de streaming. Não será preciso esperar um fixer arranjar distribuição brasileira. Basta uma assinatura da Netflix e, talvez, alguma estabilidade emocional.
A segunda parte provavelmente será mais difícil.
20 de outubro: marque no calendário e avise seu terapeuta
Do anúncio inicial até agora, Edgerunners 2 percorreu rapidamente o caminho entre promessa e produto concreto. Primeiro veio a confirmação de que CD Projekt Red e Trigger trabalhariam novamente juntas. Depois surgiram imagens, personagens e a janela de lançamento. Agora já temos dia definido, trailer novo e uma equipe começando a mostrar o rosto.
Ainda existem perguntas. Outros personagens permanecem escondidos, a extensão das conexões com Cyberpunk 2077 não foi detalhada e o roteiro certamente guarda algumas surpresas. Mesmo assim, a informação mais importante já está na mesa: 20 de outubro.
Weak tenta descobrir quem é depois de perder aquilo que o tornava poderoso. D procura o responsável pela destruição de seu clã. Roman quer transformar vidas reais em histórias. Talia carrega consigo a brutalidade da Maelstrom. Todos possuem objetivos perfeitamente razoáveis.
O problema é o endereço.
Em qualquer outro lugar, talvez houvesse esperança. Em Night City, já sabemos como isso funciona: conhecemos alguém, começamos a gostar, descobrimos seus sonhos, colocamos uma música boa na playlist e, algumas horas depois, estamos encarando os créditos enquanto reconsideramos todas as nossas escolhas emocionais.
Cyberpunk: Edgerunners 2 estreia em 20 de outubro de 2026. A Netflix finalmente respondeu quando voltaremos a Night City.
Agora resta a pergunta realmente perigosa: quem ela vai quebrar desta vez?
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