Durante quase três décadas, falar em um novo álbum do Snot parecia pertencer àquela categoria de conversas do metal que geralmente começam com “imagina se…” e terminam com alguém colocando Get Some para tocar novamente.
Agora, porém, existe contrato, gravadora e janela de lançamento.
O Snot assinou um acordo mundial com a BLKIIBLK, selo voltado ao heavy metal dentro da Frontiers Label Group, e prepara um novo álbum para o verão de 2027 no Hemisfério Norte. Antes disso, as primeiras músicas dessa fase devem começar a aparecer já no início do próximo ano, justamente quando Get Some completa três décadas.
A formação atual reúne Mikey Doling na guitarra, John “Tumor” Fahnestock no baixo, Jamie Miller na bateria e Andy Knapp nos vocais. Além disso, Doc Coyle participa das apresentações como guitarrista de apoio.
Ou seja, depois de anos entrando e saindo da garagem, o motor finalmente ganhou placa.
E aparentemente continua fedendo a punk, funk, metal e gasolina velha.
Desta vez, não é só promessa de estúdio
O Snot já vinha trabalhando em músicas inéditas havia meses.
Em janeiro, a banda informou que cinco faixas estavam concluídas. Pouco depois, esse número chegou a oito, enquanto Doling explicava que o material estava sendo produzido, gravado e mixado por Chris Collier, profissional que já trabalhou com nomes como Korn e Prong.
Naquele momento, porém, ainda havia bastante margem no calendário.
Em maio, Doling dizia que gostaria de colocar o álbum nas ruas durante a primavera norte-americana de 2027 para poder excursionar com material novo nos festivais do verão. A primeira música, segundo seus planos naquela entrevista, poderia aparecer ainda antes do fim de 2026.
O anúncio desta quinta-feira muda um pouco esse desenho.
Agora, a gravadora estabelece o verão de 2027 como janela do disco e prevê música nova no início do ano. Além disso, a assinatura mundial coloca uma estrutura comercial por trás de algo que, até então, dependia principalmente das declarações da própria banda.
Portanto, talvez seja hora de trocar o “se esse álbum sair” por algo um pouco mais otimista.
Ainda sem tatuar a data na testa, claro.
O primeiro álbum do Snot… com um asterisco importante
Existe uma pequena armadilha quando alguém resume a discografia do grupo dizendo que esse será “o primeiro álbum desde 1997”.
Get Some realmente foi o único disco convencional lançado pelo Snot durante sua formação original com Lynn Strait.
Entretanto, em 2000, os músicos sobreviventes lançaram Strait Up, projeto construído como homenagem ao vocalista após sua morte em um acidente automobilístico, em dezembro de 1998. O trabalho utilizou músicas que estavam sendo preparadas para um segundo álbum e colocou diferentes convidados nos vocais.
A lista parecia praticamente uma fotografia da cena pesada daquele período.
- Serj Tankian, do System of a Down.
- Jonathan Davis, do Korn.
- Corey Taylor, do Slipknot.
- Max Cavalera.
- Fred Durst, do Limp Bizkit.
- Brandon Boyd, do Incubus.
- Lajon Witherspoon, do Sevendust.
Entre vários outros.
Assim, o disco de 2027 não será literalmente o primeiro lançamento de estúdio do Snot desde Get Some.
Será algo talvez mais significativo: o primeiro álbum completo e convencional de material novo que a banda constrói como Snot desde aquela estreia.
Lynn Strait continua no centro da história

É impossível falar dessa retomada sem chegar a Lynn Strait.
O vocalista foi uma das figuras responsáveis por transformar o Snot em uma banda difícil de confundir com qualquer outra no cenário pesado dos anos 1990. Formado em Santa Barbara, na Califórnia, em 1995, o grupo misturava hardcore, punk, funk, groove e metal quando essas fronteiras ainda estavam sendo bagunçadas por uma geração inteira de bandas.
Então veio Get Some, em 1997.
O disco carregava riffs pesados, baixo extremamente presente, humor, caos e um vocalista que parecia ter sido criado em laboratório especificamente para não ficar parado no palco.
Um ano depois, a trajetória foi interrompida.
Strait morreu aos 30 anos em um acidente de carro na Califórnia, em 11 de dezembro de 1998. Seu cachorro Dobbs, que aparecia na capa de Get Some, também morreu no acidente. A perda levou ao fim daquela fase da banda e, posteriormente, ao tributo Strait Up.
Por isso, colocar outra pessoa na frente do Snot nunca seria apenas preencher uma vaga.
Era ocupar um espaço que os próprios integrantes consideravam praticamente impossível de substituir.
Andy Knapp entrou onde ninguém queria fingir que Lynn não existiu

A peça que tornou o novo disco possível foi Andy Knapp.
O vocalista fez sua estreia ao vivo com o Snot em janeiro de 2025, em Anaheim, e, desde então, passou a liderar essa nova fase.
Doling já falou publicamente sobre a dificuldade de encontrar alguém capaz de assumir a função sem simplesmente tentar imitar Lynn Strait. Segundo o guitarrista, a banda passou por outros nomes antes de perceber que Knapp possuía a energia, a origem regional e, sobretudo, a compreensão necessária sobre aquilo que fazia o Snot soar como Snot.
Fahnestock foi ainda mais direto em entrevistas recentes: sem encontrar Knapp, eles não acreditavam que outro álbum realmente fosse possível.
Consequentemente, o disco de 2027 carregará uma responsabilidade curiosa.
Ele precisa respeitar um vocalista impossível de substituir sem transformar sua memória numa prisão criativa.
É uma corda bamba.
Felizmente, punk nunca teve muita vocação para caminhar em linha reta.
Como vai soar esse novo Snot?
Se alguém estava esperando uma transformação eletrônica, um álbum conceitual progressivo ou quarenta minutos de folk acústico, Doling já tratou de reduzir as chances.
O guitarrista descreveu as músicas como uma continuação natural da personalidade musical da banda: punk rock, funk, metal e aquelas passagens mais relaxadas e estranhas que apareciam em Get Some.
Em abril, ele disse que reativar o “motor musical” do Snot estava sendo mais natural do que esperava e destacou justamente essa mistura entre energia punk, groove e momentos de lounge jam.
Posteriormente, ao falar das oito músicas já trabalhadas, reforçou que a ideia não era reinventar artificialmente a banda.
O objetivo era permanecer dentro daquilo que consideram a própria identidade.
Isso talvez seja mais importante do que parece.
Depois de quase 30 anos, é muito fácil uma banda histórica voltar tentando soar como uma caricatura cuidadosamente preservada da própria juventude.
Até aqui, pelo menos no discurso dos músicos, o Snot parece interessado em fazer algo diferente:
continuar de onde sua linguagem parou, não fingir que 1997 ainda está acontecendo.
A gravadora quer mais do que uma turnê nostálgica
A declaração da BLKIIBLK reforça justamente essa ideia.
Mike Gitter, chefe de A&R da Frontiers Label Group, descreveu o Snot como uma ligação entre o punk de Santa Barbara e a geração que posteriormente seria associada ao nu metal. Mais importante, porém, deixou claro que o objetivo da gravadora não é simplesmente celebrar Get Some, fazer uma rodada de shows e encerrar novamente a história.
A mensagem da companhia pode ser resumida numa frase:
Snot está vivo.
Mikey Doling também tratou a assinatura como começo, não conclusão. Segundo ele, a parceria com o selo permitirá finalmente levar as músicas que o grupo vem produzindo ao público mundial.
Portanto, a nova fase já está sendo apresentada comercialmente como algo além de uma excursão comemorativa.
Naturalmente, o teste definitivo chegará quando apertarmos o play.
Get Some completa 30 anos justamente em 2027

A escolha do calendário não poderia ser mais conveniente.
Get Some completa 30 anos em 2027, e a gravadora pretende iniciar a divulgação das novas músicas justamente no começo desse ano.
Lançado pela Geffen em 1997, o álbum não transformou o Snot numa potência comercial do tamanho de Korn ou Limp Bizkit, mas ganhou status de cult e permaneceu como referência para músicos ligados ao nu metal, hardcore, punk e outras vertentes pesadas.
A morte de Strait aconteceu justamente quando a banda parecia pronta para tentar dar o passo seguinte.
Por isso, existe algo quase circular em voltar ao estúdio três décadas depois.
O aniversário não será apenas comemorado olhando para trás.
Pela primeira vez, haverá algo novo do outro lado.
E o timing não poderia ser melhor para o nu metal
Também existe um contexto interessante ao redor desse retorno.
Nos últimos anos, a estética, as sonoridades e as bandas ligadas ao nu metal voltaram a conquistar espaço entre públicos mais jovens. Ao mesmo tempo, grupos que pareciam presos a um determinado período passaram a ocupar novamente festivais importantes.
O próprio Snot já vem sentindo esse movimento.
Desde a retomada, a banda passou por eventos como Welcome To Rockville, Sonic Temple, Inkcarceration, Louder Than Life, Aftershock, Download, Graspop, Alcatraz e Motocultor, além de realizar apresentações próprias com ingressos esgotados na América do Norte e na Europa.
Nesse sentido, fazer um disco agora não soa como uma tentativa aleatória de aproveitar uma memória antiga.
Existe plateia, circuito de festivais e uma geração que conheceu Get Some depois que a história original já havia acabado.
E existe, sobretudo, uma banda que afirma querer produzir música nova enquanto essa porta está aberta.
O que ainda está escondido no catarro
Apesar do avanço, faltam informações importantes.
O novo álbum ainda não possui título divulgado, tampouco foram revelados lista de faixas, capa ou dia exato de lançamento. A BLKIIBLK fala apenas em verão de 2027 no Hemisfério Norte, enquanto os primeiros lançamentos estão previstos para o início do ano.
Também não foi anunciado qual será o primeiro single.
Portanto, a janela pode sofrer ajustes conforme a produção avançar.
Ainda assim, existe uma diferença enorme entre “estamos trabalhando num disco e queremos lançá-lo” e “assinamos um contrato mundial e nossa gravadora anunciou quando pretende colocá-lo no mercado”.
O Snot acaba de atravessar essa linha.
Trinta anos depois, finalmente tem mais alguma coisa para Get Some
A história dessa banda sempre teve um enorme “e se?” pendurado sobre ela.
E se Lynn Strait não tivesse morrido? Ou e se aquele segundo álbum tivesse sido terminado?
E se o Snot tivesse atravessado justamente os anos em que Korn, Limp Bizkit, Slipknot e System of a Down explodiram?
Nunca teremos essas respostas.
O disco de 2027 também não precisa tentar fornecê-las.
Andy Knapp não precisa ser Lynn e o Snot atual não precisa reproduzir exatamente 1997.
Da mesma forma, Get Some não precisa ganhar uma continuação artificialmente congelada no tempo.
Talvez a coisa mais interessante seja justamente ouvir o que acontece quando Mikey Doling, John Fahnestock e Jamie Miller voltam a construir aquela mistura décadas depois, com outro vocalista e uma história inteira nas costas.
A gravadora está contratada; o álbum está sendo gravado e as primeiras músicas chegam em 2027.
Depois de quase três décadas, portanto, o Snot finalmente deixou de ser apenas uma lembrança barulhenta dos anos 1990.
O catarro voltou para a garganta. Agora falta descobrir o tamanho do escarro.
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