Por mais de uma década, olhar para o Butcher Babies significava encontrar duas vozes dividindo a linha de frente.
Esse desenho acabou em 2024.
Agora, dois anos depois da saída de Carla Harvey, a banda está finalmente pronta para mostrar como soa um álbum inteiro construído com Heidi Shepherd sozinha nos vocais principais.
O resultado se chama Nightbloom, chega em 2 de outubro de 2026 pela Judge & Jury Records e terá dez faixas. Mais do que simplesmente o próximo disco da banda, ele representa o primeiro álbum completo de uma formação que precisou descobrir como continuar depois de perder uma das figuras que ajudaram a definir sua identidade desde o início.
E, pelo que Heidi contou sobre o processo criativo, não foi exatamente uma reinvenção confortável.
Foi na base da terapia, memórias dolorosas, términos, perdas e tudo aquilo que geralmente preferimos empurrar para aquela gaveta mental marcada como “não abrir”.
Florescendo onde quase nada deveria crescer

O título Nightbloom (algo como “florescer à noite”) resume bastante bem o conceito.
Heidi Shepherd contou que começou a escrever o disco depois de passar por um período de forte insegurança pessoal. Ela se afastou das redes sociais e iniciou terapia, processo que acabou trazendo de volta lembranças e experiências que havia reprimido ao longo dos anos.
Vieram à tona histórias envolvendo o fim de um casamento, relacionamentos, rejeição, religião, perdas e o rompimento de uma amizade de duas décadas.
Em vez de simplesmente transformar tudo isso em um grande muro de sofrimento, Heidi diz ter percebido o álbum de outra maneira: não como um disco sobre aquilo que doeu, mas sobre aquilo que conseguiu sobreviver à dor.
É daí que nasce Nightbloom.
A ideia é simples e bastante bonita para uma banda chamada Butcher Babies:
algumas coisas também conseguem florescer no escuro.
Só provavelmente com um pouco mais de distorção na guitarra.
“Blame It on the Wind” abre mais uma janela
A nova fase ganhou outra amostra com “Blame It on the Wind”, lançada junto dos detalhes do álbum e acompanhada por videoclipe oficial.
A música chega depois de singles como “Sincerity” e “Lost in Your Touch”, que já vinham preparando terreno para o primeiro trabalho completo dessa configuração da banda. “Sincerity”, inclusive, foi a primeira faixa lançada depois da saída oficial de Carla Harvey, ainda em novembro de 2024.
Ou seja, a transformação não começou agora.
Nightbloom é o momento em que ela finalmente ganha um álbum inteiro para chamar de seu.
Howard Benson assume a mesa de cirurgia

A produção ficou nas mãos de Howard Benson, nome que já trabalhou com artistas como My Chemical Romance, Halestorm, Skillet e Daughtry.
O álbum também teve coprodução de Joe Rickard, Neil Sanderson e do guitarrista do próprio Butcher Babies, Henry Flury.
Benson também é um dos fundadores da Judge & Jury Records, ao lado de Neil Sanderson, baterista do Three Days Grace. O selo atualmente mantém o Butcher Babies em seu elenco e já vinha lançando os singles dessa nova fase.
Henry Flury resumiu o processo de Nightbloom como uma composição feita com propósito, em que cada detalhe deveria servir à mesma história.
É uma diferença importante para um grupo conhecido inicialmente por uma abordagem muito mais caótica e agressiva.
A pancadaria continua.
Só parece estar escolhendo melhor onde bater.
O primeiro álbum depois de Carla Harvey
Aqui está o grande peso histórico do disco.
Carla Harvey deixou oficialmente o Butcher Babies em julho de 2024, encerrando aproximadamente 15 anos ligados à banda que ajudou a fundar ao lado de Heidi Shepherd.
Durante boa parte da trajetória do grupo, a dinâmica entre as duas vocalistas foi uma das características mais imediatamente reconhecíveis do Butcher Babies.
Carla já havia se afastado temporariamente de uma turnê europeia em 2023 para passar por uma cirurgia ocular. No ano seguinte, veio a confirmação de que ela não retornaria às atividades futuras da banda.
O primeiro show após a saída oficial aconteceu em 27 de julho de 2024, no festival Stonehenge, na Holanda. Desde então, Heidi passou a ocupar sozinha a posição de vocalista principal.
Em entrevista neste ano, ela disse estar confortável nesse novo papel e destacou que os anos dividindo os vocais também lhe ensinaram muito sobre como conduzir a banda.
Então talvez seja injusto pensar em Nightbloom apenas como “o disco sem Carla”.
Ele também será o primeiro álbum que mostrará plenamente quem o Butcher Babies decidiu ser depois dela.
Do Goliath ao Nightbloom

O Butcher Babies nasceu no fim dos anos 2000 e construiu sua reputação com uma combinação de groove metal, thrash, melodias, influência punk e shows extremamente físicos.
O primeiro álbum, Goliath, chegou em 2013.
Depois vieram Take It Like a Man, de 2015, e Lilith, de 2017. Em 2023, a banda retornou com o projeto duplo Eye for an Eye… / …’Til the World’s Blind.
Ao longo dessa trajetória, Heidi e Carla funcionaram praticamente como duas faces do mesmo ataque vocal.
Agora a formação é composta por Heidi Shepherd nos vocais, Henry Flury na guitarra, Ricky Bonazza no baixo e Devin Nickles na bateria.
E Nightbloom será o primeiro álbum dessa fase a nascer completamente sem a antiga configuração.
Dez faixas para a nova cicatriz
O álbum terá dez músicas: “Lost in Your Touch”, “Sincerity”, “Blame It on the Wind”, “Broken & Beautiful”, “Are You Waiting Up?”, “Black Clouds Over Georgia”, “Fever in My Neck”, “Songbird”, “Leaving California” e “Black Dove”.
Alguns desses títulos combinam bastante com o discurso de Heidi sobre o álbum.
“Broken & Beautiful”.
“Black Clouds Over Georgia”.
“Leaving California”.
“Black Dove”.
Não parece exatamente a trilha sonora de alguém que saiu da terapia querendo cantar sobre um domingo ensolarado no parque.
E ainda assim é justamente aí que está a diferença.
Segundo Heidi, o foco não é glorificar aquilo que a machucou.
É olhar para trás e perceber: “eu sobrevivi a isso.”
Carla saiu. A história dela também continua

A saída de Carla Harvey também não representou aposentadoria musical.
Poucos meses depois de deixar o Butcher Babies, ela anunciou um novo projeto chamado The Violent Hour, deixando claro que pretendia continuar compondo e se apresentando.
Posteriormente, Carla falou publicamente sobre as razões que a levaram a deixar a banda, incluindo o desgaste provocado pelo ritmo intenso das turnês e diferenças sobre os rumos que queria para sua vida e carreira.
Ou seja, os caminhos se separaram.
E agora começamos a descobrir onde cada um deles vai parar.
Nem toda flor precisa de sol

Talvez Nightbloom acabe sendo um título mais apropriado para esta fase do Butcher Babies do que a própria banda imaginava.
Uma integrante fundamental saiu.
A estrutura vocal que acompanhou o grupo por cerca de 15 anos desapareceu.
Heidi precisou assumir sozinha um espaço que antes dividia.
E o primeiro álbum completo desse novo capítulo nasceu justamente de músicas sobre reconstrução depois de perder alguma coisa.
Não é difícil enxergar a metáfora.
Quando Nightbloom chegar em 2 de outubro, certamente haverá quem escute procurando aquilo que mudou depois de Carla Harvey.
Provavelmente será impossível não comparar.
Mas talvez a pergunta mais interessante seja outra: o que conseguiu crescer depois da mudança?
O Butcher Babies passou os últimos dois anos descobrindo a resposta. Agora falta apertar o play.
E aparentemente, no açougue, até as flores têm espinhos.
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