Algumas pessoas entram para a televisão, outras ajudam a construí-la. Laura Cardoso pertencia ao segundo grupo.
Quando ela começou a atuar, a televisão brasileira ainda estava aprendendo a ser televisão. Não havia streaming, reprise sob demanda ou sequer videotape para salvar boa parte do que ia ao ar. Havia atores, câmeras, transmissão ao vivo e a certeza de que, se alguma coisa desse errado, o público descobriria junto.
Laura atravessou tudo isso. Do rádio à TV Tupi. Da televisão ao teatro. Dos palcos ao cinema. Do preto e branco à era do streaming.
Depois de mais de oito décadas dedicadas à arte, Laura Cardoso morreu aos 98 anos, deixando uma daquelas carreiras que praticamente se confundem com a história da dramaturgia brasileira.
A grande estrela se despediu

Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira, 17 de agosto, em São Paulo.
Segundo informações divulgadas pela família, a atriz morreu de causas naturais. A notícia foi comunicada nas redes sociais da artista, administradas por seu bisneto, Fernando Faria.
Ademais, a publicação de despedida agradeceu à atriz por tudo o que deixou e chamou Laura de sua “grande estrela”.
E talvez estrela ainda seja pouco, porque Laura não chegou depois que a televisão brasileira estava pronta; ela estava lá enquanto tudo estava sendo inventado.
Antes de Laura Cardoso, havia Laurinda

Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses.
A vontade de representar apareceu cedo. Segundo a própria atriz recordaria décadas depois, quando criança já gostava de ler, recitar para familiares e brincar de representar. Aos 15 anos, apesar da resistência inicial dos pais, decidiu transformar aquilo em profissão.
O primeiro palco nem sequer tinha palco: era o rádio.
Laura começou trabalhando em radionovelas na Rádio Cosmos, ainda adolescente. Depois passaria por outras emissoras e se tornaria uma das vozes da era do radioteatro brasileiro.
Até aparecer uma engenhoca nova chamada televisão.
Quando a TV brasileira engatinhava, Laura já estava atuando
Em 1952, Laura participou de Tribunal do Coração, na TV Tupi.
É preciso colocar essa data em perspectiva: a televisão havia chegado oficialmente ao Brasil apenas dois anos antes.
Laura, portanto, não simplesmente teve uma longa carreira televisiva; ela pertenceu à primeira geração de atores da televisão brasileira.
Na Tupi, participou de diversas produções e posteriormente trabalhou também em emissoras como Excelsior, Record e Cultura.
Décadas depois, chegaria à Globo.
E aí começa uma lista em que provavelmente existe uma Laura Cardoso diferente para cada geração de brasileiro.
Relembre sua trajetória: quando tudo ainda era ao vivo
Selecionamos alguns dos trabalhos mais marcantes de sua extensa carreira, confira:
1952 — Tribunal do Coração: um dos primeiros trabalhos de Laura Cardoso na televisão. A produção da TV Tupi colocou a atriz diante das câmeras quando a própria TV brasileira tinha apenas dois anos de existência.
1969 — Os Estranhos — Diná: Laura integrou o elenco da novela da TV Excelsior, uma curiosidade especialmente saborosa para o público geek: a produção ficou conhecida também pela participação do jogador Pelé, interpretando a si mesmo.
1978 — Gaivotas — Verônica: Laura viveu Verônica na produção da TV Tupi, continuando sua presença constante na dramaturgia televisiva antes da fase que a tornaria familiar para outras gerações.
A essa altura, Laura já possuía décadas de televisão no currículo. E ainda estava longe de terminar.
Uma nova casa e personagens que ficaram na memória

1981 — Brilhante — Alda Sampaio: foi a estreia de Laura Cardoso em novelas da Globo. Alda era mãe de Luiza, personagem interpretada por Vera Fischer, e marcou o início de uma parceria que atravessaria décadas.
1984 — Livre para Voar — Marta: Laura interpretou Marta, mãe de Pardal, personagem de Tony Ramos, em uma trama de Walther Negrão.
1990 — Rainha da Sucata — Iolanda Maia: na novela de Silvio de Abreu, Laura viveu Iolanda, mãe de Ingrid, interpretada por Andréa Beltrão.
1991 — Felicidade — Cândida: na adaptação inspirada em contos de Aníbal Machado, Laura deu vida a Cândida, personagem ligada ao núcleo familiar de Helena.
1993 — Mulheres de Areia — Isaura Araújo: um dos trabalhos mais lembrados da atriz. Isaura era mãe das gêmeas Ruth e Raquel, interpretadas por Gloria Pires, e tentava lidar com as personalidades radicalmente diferentes das duas filhas.
1994 — A Viagem — Guiomar Muniz: como Dona Guiomar, Laura participou de outra novela que atravessaria gerações graças às inúmeras reprises. A personagem era mãe de Raul, vivido por Miguel Falabella.
1995 — Explode Coração — Soraya: na trama de Gloria Perez, Laura interpretou Soraya, integrante do núcleo cigano da história.
Pois é… Se a década de 1990 apresentou Laura Cardoso para uma nova geração… os anos 2000 fariam isso outra vez.
De Chocolate com Pimenta à Índia

2003 — Chocolate com Pimenta — Carmen: Laura viveu a afetuosa Carmen, avó de Danilo, personagem de Murilo Benício. Mais um papel em uma novela que ganharia longa sobrevida graças às reprises.
2005 — Hoje É Dia de Maria — Narradora/Velha: na premiada microssérie de Luiz Fernando Carvalho, Laura participou do universo fantástico inspirado na cultura popular brasileira.
2009 — Caminho das Índias — Laksmi Ananda: como Laksmi, Laura tornou-se a matriarca da família Ananda. Conservadora e profundamente ligada às tradições, a personagem ocupava posição central no núcleo indiano da novela de Gloria Perez.

2012 — Gabriela — Doroteia: na nova adaptação da obra de Jorge Amado, Laura viveu Doroteia, uma das figuras mais conservadoras de Ilhéus e defensora ferrenha dos costumes da sociedade local.
2013 — Flor do Caribe — Veridiana Trindade: interpretou Veridiana, avó de Candinho e uma das figuras do núcleo ambientado na Vila dos Ventos.
2014 — Império — Jesuína Ferreira:Laura fez uma participação como Jesuína, personagem relacionada ao passado de Maria Marta e José Alfredo.
E Laura ainda não estava pensando em parar

2016 — Sol Nascente — Sinhá: já perto dos 90 anos, Laura assumiu uma personagem bem distante das adoráveis avós que interpretou em outros momentos: Dona Sinhá, uma das antagonistas da novela.
2017 — O Outro Lado do Paraíso — Mercedes: Laura viveu Mercedes, uma senhora de forte espiritualidade e sensibilidade, apresentada como alguém capaz de perceber fenômenos que os demais personagens não compreendiam.
2019 — A Dona do Pedaço — Matilde: em sua última novela, interpretou Matilde, personagem que sofria de Alzheimer e guardava lembranças importantes relacionadas aos mistérios envolvendo a família de Maria da Paz.
E ainda assim… não era uma aposentadoria.
A última novela não foi o último trabalho

Laura Cardoso nunca demonstrou muita simpatia pela palavra “aposentadoria”.
Mesmo depois de A Dona do Pedaço, ela não anunciou oficialmente que estava abandonando a atuação.
Em 2025, aos 97 anos, protagonizou o curta-metragem Dona Rosinha, produção que abordava o abandono de pessoas idosas. Também apareceu na tradicional mensagem de fim de ano da Globo.
Era quase a confirmação prática de algo que ela repetiu durante a vida: enquanto pudesse atuar, atuaria.
E atuou.
Muito além da novela das nove
A televisão ocupa uma parcela gigantesca de sua trajetória, mas reduzir Laura Cardoso às novelas seria contar apenas parte da história.
Afinal, ela construiu também uma extensa carreira no cinema e no teatro.
No cinema, participou de dezenas de produções, incluindo Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, e Através da Janela (2000), de Tata Amaral. Sua atuação cinematográfica também lhe rendeu prêmios e reconhecimento da crítica.
Nos palcos, atravessou diferentes períodos do teatro brasileiro e recebeu, entre outras distinções, o Prêmio Shell de Melhor Atriz.
Mas existe ainda uma pequena passagem de seu currículo especialmente interessante para nós.
Yabba-Dabba-Doo! Laura também passou por Bedrock

Sim.
Antes de interpretar algumas das avós mais famosas da televisão brasileira, Laura Cardoso também trabalhou com dublagem.
E uma das personagens que receberam sua voz foi Betty Rubble, de Os Flintstones.
A própria atriz recordou posteriormente esse período da carreira e seu carinho pelo trabalho.
Ou seja, existe uma possibilidade bastante divertida de alguém ter conhecido Laura Cardoso antes mesmo de saber quem era Laura Cardoso.
Do radioteatro brasileiro a Bedrock: poucos currículos conseguem fazer essa viagem.
Oito décadas diante do público

Talvez números sejam insuficientes para medir uma carreira dessas.
Laura atravessou o rádio, participou dos primeiros anos da televisão brasileira, viu a TV ao vivo dar lugar ao videotape, acompanhou a consolidação das telenovelas, trabalhou no cinema, no teatro e chegou à era do streaming e das redes sociais.
Enquanto formatos mudavam, uma coisa permanecia: ela continuava representando.
Dependendo da geração, cada espectador provavelmente possui uma Laura Cardoso diferente para chamar de sua.
Para alguns, Isaura. Para outros, Dona Guiomar. Carmen. Laksmi. Doroteia. Mercedes. Matilde…
Para os mais antigos, talvez uma personagem exibida ao vivo pela TV Tupi cuja interpretação nem sequer sobreviveu integralmente em gravações.
E para algum nerd desavisado… Betty Rubble.
Quando a estrela vira parte do céu

Há uma frase particularmente forte associada a Laura Cardoso. Quando perguntavam sobre aposentadoria, ela costumava responder: “Aposentadoria é quando você morre.”
Laura levou essa ideia quase literalmente, pois começou adolescente, atravessou mais de oito décadas de profissão e chegou aos 97 anos ainda aparecendo diante das câmeras.
Sendo assim, pouquíssimos artistas podem dizer que acompanharam praticamente toda a evolução de um meio, menos ainda que ajudaram a escrevê-la.
Mas Laura Cardoso podia. Por isso, sua morte não representa apenas a despedida de uma grande atriz.
É a despedida de uma testemunha e protagonista da história da televisão brasileira.
A garota que começou representando no rádio viu a televisão nascer, crescer e mudar completamente. E continuou ali, interpretando… Porque algumas estrelas aparecem na televisão, mas Laura Cardoso ajudou a acender a tela.
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