Há cientistas que homenageiam colegas. Outros escolhem características anatômicas, lugares ou pessoas importantes. E há aqueles que olham para uma espécie recém-descrita e aparentemente pensam: “sabe quem merece entrar para a história da taxonomia? O Bob Esponja.”

Não é meme, nem é nome popular inventado pela internet. A ciência realmente abriga criaturas chamadas Euglossa bazinga, Spongiforma squarepantsii, Peckoltia greedoi, Gollumjapyx smeagol e até Yoda purpurata.

A cultura pop conseguiu invadir até aquele território que imaginávamos reservado a nomes em latim impossíveis de pronunciar.

E o mais divertido é que essas escolhas nem sempre são referências jogadas ao acaso. Em vários casos, há uma piada científica escondida no nome. Pode ser uma aparência familiar, um modo de vida peculiar ou uma história que parece ter sido escrita especialmente para um nerd com acesso às regras da nomenclatura zoológica.

Por isso, prepare o microscópio, vista o jaleco e não esqueça a toalha. O Ciência Geek de hoje vai conhecer algumas criaturas que provam que, quando os cientistas também são geeks, nem a taxonomia escapa.

Bazinga! Uma abelha brasileira pregou uma peça nos cientistas

Comecemos justamente pela criatura da publicação que inspirou esta matéria: Euglossa bazinga.

E a história real consegue ser melhor que o nome.

A espécie foi descrita em 2012 pelos pesquisadores brasileiros André Nemésio e Rafael R. Ferrari em artigo publicado na revista científica Zootaxa.

Trata-se de uma abelha-das-orquídeas encontrada no oeste brasileiro e que havia sido confundida com Euglossa ignita. A descrição formal separou a espécie e lhe deu o nome que imediatamente chama a atenção de qualquer fã de The Big Bang Theory.

Bazinga, claro, é o famoso bordão associado a Sheldon Cooper.

E existe uma coincidência deliciosa entre a referência e a história taxonômica: a nova espécie passou despercebida justamente por sua semelhança com outra. A associação com o “Bazinga!” de Sheldon tornou o nome especialmente apropriado.

Ou seja: durante algum tempo, a abelha conseguiu enganar gente que literalmente ganha a vida diferenciando abelhas.

Bazinga!

Ponto para ela.

Quem vive num fungo lá em Bornéu?

Em 2011, Dennis Desjardin, Kabir Peay e Thomas Bruns descreveram um fungo encontrado em Sarawak, na ilha de Bornéu, Malásia.

O nome escolhido? Spongiforma squarepantsii.

Leia novamente: Squarepantsii.

Sim, estamos falando de Bob Esponja Calça Quadrada.

E dessa vez os autores deixaram a explicação registrada no próprio trabalho científico. O fungo possui corpo esponjoso, e sua forma lembrava aos pesquisadores o personagem.

Mais ainda: quando observado por microscopia eletrônica, seu himênio também foi comparado a um fundo marinho repleto de esponjas tubulares, remetendo ao universo fictício de Bob Esponja.

A criatura não vive num abacaxi no fundo do mar, pois é um fungo terrestre, mas a comparação visual foi suficiente para garantir que Bob Esponja conquistasse seu pequeno território na micologia.

E Spongiforma squarepantsii continua sendo um nome científico reconhecido em bases taxonômicas.

Stephen Hillenburg ficaria orgulhoso… Ou provavelmente perguntaria onde está Patrick.

Em uma galáxia muito, muito distante… chamada Brasil

Se você achou que Star Wars escaparia dessa festa, sua falta de fé é perturbadora.

Em 2015, Jonathan Armbruster, David Werneke e Milton Tan descreveram Peckoltia greedoi, um peixe da família Loricariidae encontrado na drenagem do rio Gurupi, no Brasil.

O “greedoi” é exatamente o que você está pensando.

Greedo, o caçador de recompensas rodiano que protagoniza com Han Solo uma das cenas mais discutidas da história de Star Wars.

E os autores não escolheram o nome apenas porque gostavam da saga: a etimologia registrada associa a espécie ao personagem devido àquilo que consideraram uma notável semelhança entre os dois.

Isso significa que existe oficialmente um peixe brasileiro chamado Greedo.

Sobre quem nadou primeiro, a ciência ainda não se pronunciou.

Encontrado nas profundezas, ele foi

Pois é… Greedo não está sozinho. Em 2012, pesquisadores descreveram um novo gênero e espécie de enteropneusto, um animal marinho do filo Hemichordata, encontrado nas profundezas do Atlântico Norte.

Yoda purpurata.

Sim. Yoda.

E aqui temos novamente uma referência com justificativa anatômica.

No artigo científico original, os pesquisadores explicam que o nome do gênero faz referência aos lábios laterais do animal, cuja forma lembrava as orelhas de Yoda.

A espécie foi coletada a mais de 2,6 mil metros de profundidade no Atlântico Norte.

Portanto, em algum momento da história da ciência, pesquisadores observaram uma criatura das profundezas oceânicas, analisaram cuidadosamente sua anatomia e chegaram à conclusão absolutamente razoável:

Mestre Yoda, isso parece. Nomeá-la assim, devemos.

Meu precioso… artrópode?

Saímos das profundezas do oceano e entramos nas cavernas.

Em 2006, pesquisadores descreveram um dipluro subterrâneo encontrado no leste da Península Ibérica.

E aparentemente decidiram que uma referência a Tolkien não seria suficiente.

Então colocaram duas:Gollumjapyx smeagol.

O gênero homenageia Gollum, já o nome específico homenageia Sméagol.

Sim, é o mesmo personagem duas vezes.

A escolha conversa particularmente bem com o animal: trata-se de uma criatura altamente adaptada à vida subterrânea, encontrada em ambientes cavernícolas.

O artigo que apresentou a espécie foi publicado na Zootaxa e descreveu características típicas dessa adaptação ao ambiente hipógeo.

Gollum passou boa parte de sua existência fictícia escondido nas profundezas das Montanhas Sombrias.

O pequeno Gollumjapyx smeagol também fez das profundezas seu lar.

Só esperamos que ele não tenha encontrado nenhum anel por lá.

Wish You Were… Shrimp

Agora o Teoria Geek entra em território especialmente familiar e que eu adoro: rock.

Em 2017, Arthur Anker, Kristin Hultgren e Sammy De Grave apresentaram ao mundo Synalpheus pinkfloydi, uma nova espécie de camarão-estalo do Pacífico tropical oriental. O artigo foi publicado, mais uma vez, na Zootaxa.

O “pinkfloydi” não exige exatamente um doutorado em taxonomia para decifrar.

É uma homenagem ao Pink Floyd.

E o camarão ainda entrou no espírito da banda: possui uma grande pinça de coloração rosa intensa.

Camarões-estalo são conhecidos pelo mecanismo extremamente rápido de suas pinças, capaz de produzir uma bolha de cavitação e um forte pulso sonoro. Portanto, temos uma criatura minúscula, barulhenta, com uma pinça rosa e chamada Pink Floyd.

Há momentos em que o universo simplesmente entrega a piada pronta.

The Dark Side of the Shrimp estava logo ali.

Mas pode isso, Arnaldo?

A essa altura surge uma dúvida legítima: um cientista pode simplesmente descobrir um animal e colocar nele uma referência à sua série favorita?

Não é exatamente um vale-tudo, mas há bastante liberdade.

Na zoologia, o sistema é regulamentado pelo International Code of Zoological Nomenclature, administrado pela International Commission on Zoological Nomenclature (ICZN).

Dessa forma, para que um novo nome zoológico seja estabelecido de maneira válida, existem regras sobre publicação, formação do nome e espécimes de referência, entre outros requisitos.

Aquela estrutura familiar (Homo sapiens, por exemplo) segue a nomenclatura binomial: primeiro vem o gênero; depois, o nome específico. O gênero começa com maiúscula, o segundo termo com minúscula, e ambos aparecem convencionalmente em itálico.

Sendo assim, os nomes podem fazer referência a características do organismo, à sua origem geográfica ou homenagear pessoas. E, como nossa pequena excursão demonstrou, a criatividade dos taxonomistas encontrou espaço para referências culturais também.

Contudo, há uma diferença fundamental entre dar um nome divertido a uma descoberta legítima e simplesmente inventar um bicho com nome engraçado.

Antes de chegar à cerimônia de batismo, é necessário demonstrar cientificamente que aquilo merece ser descrito como um novo táxon. A própria ICZN ressalta que esse trabalho cabe a especialistas e pode exigir extensa pesquisa para verificar se o organismo já não foi descrito anteriormente.

Em outras palavras: primeiro você faz ciência, depois pode liberar o seu nerd interior.

A cultura pop também virou fóssil científico

Talvez seja essa a parte mais fascinante de toda a história.

Uma série acaba, uma banda encerra suas atividades, um filme envelhece, personagens deixam o horário nobre e passam para os serviços de streaming.

Mas um nome científico pode permanecer.

Bob Esponja foi parar na micologia. Yoda mergulhou nas profundezas do Atlântico. Greedo virou peixe brasileiro. Gollum se escondeu em cavernas espanholas. Pink Floyd ganhou uma pinça.

E Sheldon Cooper? Ganhou uma abelha brasileira que passou despercebida justamente por ser confundida com outra espécie.

Não poderia terminar de outra maneira.

A ciência passou séculos construindo um sistema internacional rigoroso para organizar a biodiversidade do planeta.

Aí chegaram os nerds.

Bazinga!

 

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